Funções executivas e o mal estar na lesão

Para aqueles que estão acompanhando meus textos, acredito que entenderão facilmente o trocadilho deste título. Calma, darei detalhes, é só questão de algumas linhas.

Vamos lá!

É bem sabido e muito comum que pessoas que sofrem algum tipo de lesão cerebral (AVC, TCE, tumores, encefalite, etc.) podem ter prejuízos motores, emocionais, alterações de personalidade e comprometimento cognitivo. E é nesse conjunto de funções cognitivas que podem sofrer alterações significativas que entram aquilo que chamamos de funções executivas (F.E.).

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As funções executivas são um conjunto de habilidades que gerenciam, regulam e controlam nosso comportamento. De uma forma geral, são capacidades que iniciam, planejam, organizam e sequencializam comportamentos dirigidos à uma meta. É fácil compreender, portanto, que as F.E. estão presentes na maioria dos nossos comportamentos, desde elaborações simples, como sair para comprar pão, até as mais complexas como numa partida de xadrez. Esse conjunto de habilidades incluiriam as habilidades de:

planejamento, controle inibitório, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões, memória operacional, atenção, categorização e fluência

Não entrarei em detalhes sobre cada uma destas habilidades para não perder o foco deste texto. Farei melhor dando exemplos de como alterações nas funções executivas podem atrapalhar nossa vida.

Para quem leu e se lembra do post do caso Phineas Gage, poderá estabelecer uma relação mais compreensível entre como algumas alterações nestas funções influenciam dramaticamente o comportamento humano. Revisitando sua lembrança, tente responder a seguinte pergunta: “que região ou quais regiões do cérebro são responsáveis pelo funcionamento das funções executivas?” Quem respondeu “o córtex pré-frontal” acertou. A resposta para essa pergunta tem uma grande importância clínica, pois ajuda neurologias e neuropsicólogos a identificar o que causa estas alterações comportamentais.

O córtex pré-frontal (CPF) como o próprio nome diz, fica na parte da frente do cérebro, mais especificamente atrás dos nossos olhos e testa. Muito se tem falado que a sede das F.E. é o CPF, no entanto é mais correto dizer que essas funções são resultantes da atividade distribuída em diferentes circuitos neurais.

Ok! Agora vamos ao que interessa. Lesões nesses diferentes circuitos causam frequentemente:

1)    Extrema desorganização e comprometimento na habilidade de planejamento. Por ex.: o sujeito não consegue terminar uma atividade iniciada, pois é incapaz de sequencializar etapas para atingir um objetivo.

2)    Prejuízo na tomada de decisão. Por ex.: o paciente decide por algo aparentemente vantajoso, mas que a longo prazo traz sério prejuízo. Pessoas com este tipo de alteração não são capazes de prever as consequências das decisões que tomam.

3)    Desinibição comportamental ou falta de controle inibitório. Por ex.: xingar as pessoas ou falar sem pensar (o que vier à cabeça).

4)    Flutuação atencional. Por ex.: o foco de atenção se torna lábil e o sujeito perde a meta/objetivo do que estava fazendo, como quando está lavando a louça, sai pra atender o telefone e quando desliga não retorna à atividade.

5)    Dificuldade em flexibilizar o pensamento. Por ex.: muita rigidez expressa na dificuldade de pensar em soluções e estratégias alternativas para solucionar um problema.

6)    Comprometimento na habilidade de solucionar problemas.

7)    Alteração da personalidade. Por ex.: basicamente comportar-se de forma diferente ao período pré-lesão. Pode então ser expresso pelo uso de linguagem obscena, tornar-se um “piadista”, situações essas facilmente percebidas em contextos sociais que requerem polidez.

8)    Exposição a comportamentos de risco. Por ex.: pelo uso de drogas, desrespeito a autoridades ou hierarquias.

9)    Falta de iniciativa. Por ex.: não inicia comportamentos sozinho, apenas se solicitado.

10) Desregulação emocional. Por ex.: humor lábil e oscilante, irritabilidade, agressividade.

Estes são apenas alguns exemplos, pois há uma infinidade de comportamentos alterados em lesões pré-frontais que caracterizam a Síndrome Disexecutiva.

Agora que o assunto está legitimado, torna-se mais fácil entender o porquê do título do texto. Há uma infinidade de relatos de casos com alterações nas F.E. sobre a dificuldade de ter que conviver com tanta mudança, seja cognitiva, social, comportamental ou mesmo de personalidade. Uma convivência com um novo “eu”, com uma nova IDENTIDADE. Difícil para o sujeito, difícil para sua família. Cabe a nós profissionais ajudá-los a diminuir o impacto que essas alterações tem na sua vida diária.

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2 thoughts on “Funções executivas e o mal estar na lesão

  1. Pingback: Tomada de decisão: como ela ocorre no cérebro? (2ª parte) | Ciência do Cérebro

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