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Sobre Luciane Simonetti

Psicóloga Cognitiva, Mestranda pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo / UNIFESP e Colaboradora do Centro Paulista de Neuropsicologia (REAB-CPN). Trabalha com Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica de adultos com Lesão Encefálica Adquirida (LEA) e desenvolve estudos com pacientes amnésicos e os processos de consolidação da memória.

Personalidade e o que nosso cérebro tem a ver com isso

Nada de Freud, ou explicações projetivas. Nada de Rogers, nem correntes humanistas e derivados. Não que eu tenha algo contra essas duas figuras importantes da psicologia e seus respectivos movimentos, mas gostaria de falar sobre personalidade de uma perspectiva biológica.

O fato é que é bastante comum na área da psicologia associarmos o tema personalidade a teorias que nada falam sobre suas bases biológicas e nem como esses processos biológicos são importantes para a formação da personalidade única de cada um de nós. Minha tentativa é a de explorar um pouco este outro segmento, portanto.

Sem querer reinventar a roda, mas só para tomar como ponto básico da questão: a personalidade vai se desenvolvendo ao longo da vida como resultado da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Pois bem. Temos observado cada vez mais estudos revelando componentes genéticos relacionados a traços de personalidade principalmente em estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos. Para resumir a história toda, o que estes estudos falam é que os gêmeos monozigóticos que carregam os mesmos genes (diferentes dos dizigóticos que não carregam), mesmo quando criados separados, ou seja, por famílias diferentes compartilhariam as mesmas características de personalidade. Essa é uma das maiores evidências de que a personalidade, ou mais comumente falando, o “nosso jeito de ser” muito tem a ver com nossos cromossomos, genes, DNA, cérebro, enfim.

Sabemos também que muitos dos genes que carregamos podem estar especificamente ligados a traços de personalidade, como por exemplo, a quantidade de neurotransmissores que temos em regiões específicas do nosso cérebro. Tê-los de mais ou de menos determinariam o modo como nossos comportamentos são regulados, e portanto, nossa personalidade também.

Pensando em tempos um pouco remotos, na década de 1950 pacientes psiquiátricos julgados como “pessoas incorrigíveis” eram submetidos a uma cirurgia chamada lobotomia, um procedimento que hoje já caiu em desuso, e que rompia ligamentos do lobo frontal a regiões subcorticais (mais profundas) do cérebro. Este procedimento era realizado como uma forma de alterar aspectos importantes da personalidade. Para quem não viu o clássico filme Um estranho no ninho, estrelado por Jack Nicholson, fica a dica para conhecer mais sobre o assunto

Agora, já puxando uma sardinha para o meu lado, profissionais que trabalham com Neuropsicologia e Reabilitação hão de concordar comigo: quando uma pessoa sofre uma lesão cerebral na região do córtex pré-frontal, por exemplo, ela pode sofrer mudanças fortes na personalidade. De calma, tranquila e introvertida, a uma pessoa extrovertida, desinibida, impulsiva e socialmente inadequada (por ex.: falar que você está gordo(a) e não perceber o quanto isso é indelicado). Já pessoas que sofrem lesão no lobo temporal (região lateral da cabeça) podem se tornar mal-humoradas, metódicas e obsessivas para seguir regras.

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Enfim, não temos como negar que existe uma base biológica fortíssima que nos ajuda a entender ainda mais este fenômeno. Sabemos que traços, características e temperamentos não se constituem de forma única para explicar nossa personalidade. O que nos torna únicos são nossas interações humanas e o modo como nos relacionamos com o mundo. Por isso cada cérebro, é um cérebro, uma identidade particular e intransferível.

Um gigante acordou

Para quem está acompanhando as notícias deve saber que Michael Schumacher, o heptacampeão (sete vezes) de Fórmula 1 recém acordou de um coma que durou cerca de seis meses. Mais uma vitória para seu histórico de medalhas e taças, não é mesmo?

Nesta semana a revista Isto é publicou uma reportagem sobre Schumy que virou manchete de capa. Ainda não comprei a revista, mas provavelmente falarão sobre seu acidente e a situação em que se encontra atualmente. Além desta reportagem poderemos acompanhar a entrevista de uma sobrevivente de Traumatismo Craniano cujo tratamento de reabilitação cognitiva foi oferecido pelo Centro Paulista de Neuropsicologia, um dos pioneiros no Brasil na área de reabilitação. Para os interessados de plantão, sugiro que tentem acompanhar essas notícias.

Hoje, meu papel aqui é o de ressaltar alguns pontos importantes sobre a situação de pessoas que acordam do período de coma. A principal mensagem é a de que este período após o coma É APENAS O COMEÇO.

Atividade cerebral. Cirurgias. Clipagem. Uso de sonda. Aparelhos para ajudar a respirar. São tantos os desafios para sobreviventes após um acidente cerebral. Embora os progressos possam ser lentos, é possível percebê-los e vibrar a cada novo (e muitas vezes, pequeno) avanço.

O período pós coma ainda é um período delicado, uma vez que é importante saber quais as limitações do paciente e o que ele já é capaz de fazer. Neste momento de cuidados intensivos especiais, contamos muito com ajuda de médicos neurologistas e neurocirurgiões. Ainda no hospital, quando o paciente é levado para o quarto já somos capazes de observar algumas de suas capacidades cognitivas mais elementares como nível de consciência, capacidade de falar ou se comunicar com gestos, reconhecer familiares, ou seguir comandos simples. A recuperação após um acidente grave varia de pessoa para pessoa, mas sem dúvida alguma o tratamento precoce favorece enormemente esses casos.

A Reabilitação Neuropsicológica, como já falei algumas vezes aqui em outros textos, pode incluir uma equipe grande de profissionais. Neurologistas, psicólogos, neuropsicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, fisiatras, terapeutas ocupacionais, precisam trabalhar juntos de forma trans e multidisciplinar, cada um em sua área de especialidade, mas trocando informações com o objetivo de favorecer a recuperação do paciente e possibilitar maior qualidade de vida a ele e seus familiares. É importante ressaltar que o tratamento físico é extremamente importante nesse momento e um dos primeiros a ser realizado. Dependendo do quadro clínico, também é possível trabalhar com as dificuldades da fala, caso elas estejam presentes, e assim, um segundo passo pode ser tomado: observar quais dificuldades cognitivas estão presentes e como podemos trabalhar para compensar esses déficits.

É muito comum dúvidas surgirem após um acidente grave, como por exemplo, “eu voltarei a ser o que eu era?”; “por que agora eu esqueço tudo?”; “será que eu vou ter a memória que eu tinha antes?”; “por que hoje eu sou impulsivo e não consigo controlar meus comportamentos?”; “por que eu mudei?”. Ainda é cedo para dizer, mas muitas pessoas estão se perguntando como será a recuperação de Schumacher e quais progressos podemos esperar. Para aqueles que querem saber como isso poderá acontecer, sugiro a leitura do blog Meu cérebro mudou, construído e elaborado por sobreviventes de acidente cerebral com auxílio da nossa equipe de profissionais. O objetivo é o de relatar suas experiências após acidente cerebral. Eles são os nossos campeões, assim como Schumy é para os fãs de Fórmula 1.

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MUITO HÁ O QUE SER FEITO. Mas podemos fazer muito. E nossos pacientes também! <3

Avaliação Neuropsicológica: por quê e para quê?

Queridos leitores, estou devendo este texto já faz um tempo. Hoje resolvi colocar algumas coisas em dia e isso inclui meu blog também =)

Para aqueles que pensam que eu vou ficar aqui reinventando a roda sobre o tema (já que está tão na moda), ou ainda, aqueles curiosos por saber qual teste pode ser aplicado em algum quadro de distúrbio neurológico, podem dar meia volta que não é nada disso.

O objetivo deste texto é justamente provocar vossas mentes para pensarmos juntos na real função da avaliação neuropsicológica. A resposta parece bem óbvia e bem intuitiva, mas não é tão simples assim. Então, antes de dizer o que eu penso sobre a avaliação, por quê e para quê ela serve, vou antes mencionar aquilo que grande parte das pessoas que trabalham com neuropsicologia já sabem. Para isso, vamos responder a seguinte pergunta:

  •  O que é Avaliação Neuropsicológica?

É uma atividade exercida geralmente por psicólogos, pois é a única profissão que regulamenta a utilização de testes psicológicos e neuropsicológicos.

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[Seu objetivo é investigar funções cognitivas (pensamento, atenção, memória, linguagem, percepção etc.) em pessoas que possam apresentar algum tipo de comprometimento cerebral, e relacionar com prejuízos comportamentais. Esta prática auxilia muito na observação do que está preservado e o que está comprometido.]

Alguns poucos anos estudando e trabalhando com neuropsicologia, avaliação e reabilitação me ajudaram a entender que essa prática não se resume apenas a isso. O uso de testes padronizados ainda é bastante escasso no Brasil, ainda não temos disponíveis medidas que nos ajudem a entender como a nossa população brasileira se comporta diante de determinados fenômenos (nesse caso, fenômenos cerebrais). Essa é uma das limitações que enfrentamos.

No entanto, quem trabalha com avaliação sabe que os testes são apenas ferramentas que ajudam a entender um quadro clínico naquele momento específico, como uma fotografia daquele momento do funcionamento cerebral do sujeito. E sabem, creio eu, que existem outras formas de avaliar que não seja com o uso de testes apenas. Nossa observação é um excelente crivo que podemos utilizar diante de um paciente.

Pois bem, mas então se não temos tantos testes assim para quê serve a avaliação, e por quê ela é importante? Em primeiro lugar, devo dizer que sim, a avaliação é extremamente importante, mas a prática limitada apenas a entender o funcionamento do paciente, o grau de comprometimento e a elaboração de um relatório, de nada auxilia esse sujeito. De nada auxilia em termos do que fazer depois.

PORTANTO, a avaliação neuropsicológica tem a função de, além destas já apontadas, auxiliar na elaboração de um plano de intervenção, que é o que chamamos de Reabilitação Neuropsicológica, a cereja do nosso bolo!

Por isso eu sempre digo: avaliar para reabilitar. Precisamos oferecer o maior suporte que pudermos, minimizando, diminuindo, compensando os déficits e prejuízos causados por um acidente cerebral. Nosso objetivo de ouro é entender o funcionamento dos nossos pacientes em situações da vida real, e para isso, não precisamos apenas de testes, mas sim de um olhar voltado para como eles realizam suas atividades e tarefas diariamente: o que está difícil, o que naquele momento não é possível de se fazer, que suporte ele precisa, quem irá monitorá-lo… e por aí vai.

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Queremos que a avaliação nos direcione, que ela seja uma norteadora das nossas intervenções, para que possamos oferecer o maior nível de qualidade de vida possível a essas pessoas.

Dá para imaginar como eu amo esse trabalho, né? <3