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Sobre Luciane Simonetti

Psicóloga Cognitiva, Mestranda pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo / UNIFESP e Colaboradora do Centro Paulista de Neuropsicologia (REAB-CPN). Trabalha com Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica de adultos com Lesão Encefálica Adquirida (LEA) e desenvolve estudos com pacientes amnésicos e os processos de consolidação da memória.

Avaliação é um norte. Avante!

Caros leitores! Andei observando os textos mais acessados do meu blog e não era para menos. Tive um enorme acesso no tema “avaliação neuropsicológica” e por isso resolvi escrever um pouco mais sobre o assunto já que o povo gostou =)

Para quem está mais familiarizado com Neuropsicologia, pode ser que o assunto fique um pouco repetitivo, o que não elimina o fato de que bons profissionais procuram estudar, pesquisar, enfim, aprofundar seus conhecimentos, e portanto, mesmo para aqueles que já trabalham na área considero o texto útil. Por outro lado, esse texto também pode ajudar você que ainda está curioso em saber como trabalha um neuropsicólogo, ou melhor, como suas práticas vão sendo manifestadas na clínica.

Uma das atividades que mais são exercidas pelos neuropsicólogos é a prática da avaliação. Na nossa área, por exemplo, é bastante comum lidarmos com frases do tipo…

“aquele menino parece esquisito, quase não fala, não interage, será que ele tem um transtorno?”

“minha mãe tem 80 anos e está muito esquecida, já não reconhece as pessoas, acho que ela está com Alzheimer”

“essa criança está muito agitada, talvez tenha TDAH e precisa de um especialista para avaliá-lo”

“meu irmão bateu a cabeça quando caiu de moto e agora está agressivo, impulsivo, fala coisas absurdas para os outros”.

Estudantes, profissionais, colegas ou familiares, não importa quem seja o interlocutor: diariamente ouvimos isso e a única forma de poder responder a essas questões é fazermos uma avaliação neuropsicológica. Como já mencionado no outro texto, a avaliação trata-se de uma prática que auxilia o clínico a investigar funções cerebrais que podem estar comprometidas. Além disto, o uso de instrumentos sensíveis também nos ajuda a compreender o grau de prejuízo decorrente de um problema neurológico, cerebral.

O uso de testes é fundamental para nossa investigação. No entanto, eles não são a única forma de sabermos se existe um prejuízo cognitivo, e como ele interfere na vida da pessoa assistida. Desde o primeiro contato com o paciente, o histórico da doença, os dados atuais, o relato dos familiares, o uso de escalas comportamentais e de humor, escalas para cuidadores, tarefas funcionais e ecológicas, e por fim, a observação clínica, são riquíssimas fontes de informação que quando agrupadas e compreendidas de forma relacional, nos ajudam a perceber o grau de impacto no dia a dia do paciente, ou seja, o quanto um problema cerebral atrapalha a sua vida. Quando conseguimos fazer essa relação, então podemos elaborar em conjunto – o clínico, a família e o paciente – metas para reabilitação e selecionar quais estratégias são mais eficazes para cada caso específico.

Montei um esquema que ajuda a ilustrar de forma clara quais funções podem ser investigadas e como elas podem interferir na vida do paciente. As setas indicam a causalidade entre função prejudicada e impacto no comportamento, personalidade, emoções, interação social e de forma mais ampla, na vida diária.

 

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Um ponto bastante importante é a seleção dos instrumentos que serão utilizados na avaliação neuropsicológica. Este é um momento que exige muita cautela e cuidado, pois mais adiante, sua hipótese cognitiva resultará dos resultados da avaliação e do seu raciocínio clínico. Isso equivale a dizer que se você utilizar testes que avaliam apenas uma parte das funções cerebrais, poderá correr o risco de traçar um perfil neuropsicológico pouco fidedigno e, consequentemente, um plano de tratamento falho ou pouco eficaz. Compreender os déficits do paciente é tão importante quanto conhecer o que está preservado.

Assim, reuniões clínicas, contato com neurologistas, fisiatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, e estudo continuado com supervisão especializada de pessoas que trabalham há anos na área farão você se munir de conhecimentos que nortearão efetivamente o seu trabalho.

Neuropsicologia é um conhecimento e uma prática difíceis, mas trabalhar na área é tão gratificante que faz valer a pena.

Aprendendo sobre Neuropsicologia: como fazer?

Ei, você que tem um interesse especial pela Neuropsicologia: já parou para pensar nos diferentes tipos de formação nessa área que tem sido oferecidos aqui no Brasil? Atualmente temos diferentes opções que podem te ajudar a aprender sobre o assunto, desde estágio em hospitais e serviços de neurologia, centros de reabilitação, além de fazer algum curso de especialização. Mas, como saber a atividade que melhor irá atender às suas necessidades num primeiro momento? Como decidir entre cada uma delas, pensando que na maioria das vezes não se pode fazer tudo ao mesmo tempo? E finalmente, como saber se o que você sabe e aprendeu é importante e suficiente para futuramente trabalhar nessa área?

Vamos por partes. É importante que você analise cada opção antes de tomar uma decisão. Vou tentar listar aqui algumas atividades que devem ser pensadas com calma, e que eu diria são decisivas para você que quer investir na carreira de Neuropsicologia.

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Primeiro você deve ter em mente que é preciso:
• Estudar a fundo e de modo sistemático sobre cérebro, cognição e comportamento e entender a relação entre eles em pessoas saudáveis ou com algum comprometimento neurológico.

• Dedicar seu tempo periodicamente ao estudo do funcionamento cerebral, funções cognitivas (atenção, memória, funções executivas etc.), conhecer sobre testes neuropsicológicos e práticas de reabilitação, e sim, ter a prática de todo este conhecimento.

• Ter postura proativa para estabelecer boas relações com colegas, mentores, professores, supervisores, pois isso abre portas para você investir na sua carreira.

Certo. E como fazer isso? Cursos de especialização em Neuropsicologia. Procure se informar sobre os horários do curso, se você se encaixa neles, quem são os professores, se a proposta curricular oferece o que você precisa e quer aprender. Para facilitar vossas vidas, aqui vai uma super dica de um curso do qual conheço os profissionais envolvidos, professores (alguns colegas, inclusive). O link é este aqui e este aqui. Tem uma sessão “depoimentos” que novos futuros alunos podem ler para saber um pouco da experiência que alunos já formados tiveram. Ligue, se informe, pergunte.

Segundo:
• Você deve pedir referências sobre a atuação nessa área para pessoas que já trabalham nela, perguntar como é a dinâmica do trabalho, e como fazer para conseguir oportunidades. Aqui você vai fazendo seu networking também.

• Pesquise os centros, hospitais, profissionais da área de saúde, tire dúvidas com eles (por quê, não?) e tente um estágio com início, meio e fim, com um objetivo claro. Existem vários hospitais, clínicas, centros, mas claro que vou citar mais uma vez o lugar do qual eu tenho formação e ainda continuo. O Centro Paulista de Neuropsicologia.

Só para deixar claro: a ordem que eu expus aqui é só para facilitar a vida, mas não é uma regra. Além disso, nada impede que você faça atividades paralelas, basta conseguir administrar seu tempo, e conseguir delimitar minimamente com o quê gostaria de trabalhar (crianças, adultos, idosos, pacientes com lesões, demências, transtornos do desenvolvimento ou da aprendizagem etc.) para saber que tipo de aprendizagem, formação e contatos profissionais você precisa desenvolver.

Terceiro:
• Encare como um desafio, mas um desafio prazeroso. Não é fácil estudar um tema tão complexo como cérebro, comportamento, cognição. Mas uma coisa eu garanto, quem gosta do que faz, quem dá sentido ao seu trabalho no final das contas sente que está contribuindo com algo, fazendo alguma diferença. Pelo menos eu me sinto assim :)

Além dos cursos de especialização, existem os cursos complementares que nos atualizam, nos coloca em contato com outros profissionais, nos dá um norte, principalmente quando ainda estamos tentando definir com o que trabalhar.

Vou deixar aqui duas recomendações:

1) Curso de Extensão: Reabilitação Neuropsicológica na Infância, oferecido pelo Centro Paulista de Neuropsicologia (clique aqui). No site do centro sempre há oferta de cursos, por isso, fique de olho.

2) Deixo o folder do Curso de Especialização da sede de São Paulo do qual citei acima. Confiram!

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Personalidade e o que nosso cérebro tem a ver com isso

Nada de Freud, ou explicações projetivas. Nada de Rogers, nem correntes humanistas e derivados. Não que eu tenha algo contra essas duas figuras importantes da psicologia e seus respectivos movimentos, mas gostaria de falar sobre personalidade de uma perspectiva biológica.

O fato é que é bastante comum na área da psicologia associarmos o tema personalidade a teorias que nada falam sobre suas bases biológicas e nem como esses processos biológicos são importantes para a formação da personalidade única de cada um de nós. Minha tentativa é a de explorar um pouco este outro segmento, portanto.

Sem querer reinventar a roda, mas só para tomar como ponto básico da questão: a personalidade vai se desenvolvendo ao longo da vida como resultado da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Pois bem. Temos observado cada vez mais estudos revelando componentes genéticos relacionados a traços de personalidade principalmente em estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos. Para resumir a história toda, o que estes estudos falam é que os gêmeos monozigóticos que carregam os mesmos genes (diferentes dos dizigóticos que não carregam), mesmo quando criados separados, ou seja, por famílias diferentes compartilhariam as mesmas características de personalidade. Essa é uma das maiores evidências de que a personalidade, ou mais comumente falando, o “nosso jeito de ser” muito tem a ver com nossos cromossomos, genes, DNA, cérebro, enfim.

Sabemos também que muitos dos genes que carregamos podem estar especificamente ligados a traços de personalidade, como por exemplo, a quantidade de neurotransmissores que temos em regiões específicas do nosso cérebro. Tê-los de mais ou de menos determinariam o modo como nossos comportamentos são regulados, e portanto, nossa personalidade também.

Pensando em tempos um pouco remotos, na década de 1950 pacientes psiquiátricos julgados como “pessoas incorrigíveis” eram submetidos a uma cirurgia chamada lobotomia, um procedimento que hoje já caiu em desuso, e que rompia ligamentos do lobo frontal a regiões subcorticais (mais profundas) do cérebro. Este procedimento era realizado como uma forma de alterar aspectos importantes da personalidade. Para quem não viu o clássico filme Um estranho no ninho, estrelado por Jack Nicholson, fica a dica para conhecer mais sobre o assunto

Agora, já puxando uma sardinha para o meu lado, profissionais que trabalham com Neuropsicologia e Reabilitação hão de concordar comigo: quando uma pessoa sofre uma lesão cerebral na região do córtex pré-frontal, por exemplo, ela pode sofrer mudanças fortes na personalidade. De calma, tranquila e introvertida, a uma pessoa extrovertida, desinibida, impulsiva e socialmente inadequada (por ex.: falar que você está gordo(a) e não perceber o quanto isso é indelicado). Já pessoas que sofrem lesão no lobo temporal (região lateral da cabeça) podem se tornar mal-humoradas, metódicas e obsessivas para seguir regras.

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Enfim, não temos como negar que existe uma base biológica fortíssima que nos ajuda a entender ainda mais este fenômeno. Sabemos que traços, características e temperamentos não se constituem de forma única para explicar nossa personalidade. O que nos torna únicos são nossas interações humanas e o modo como nos relacionamos com o mundo. Por isso cada cérebro, é um cérebro, uma identidade particular e intransferível.