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Sobre Luciane Simonetti

Psicóloga Cognitiva, Mestranda pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo / UNIFESP e Colaboradora do Centro Paulista de Neuropsicologia (REAB-CPN). Trabalha com Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica de adultos com Lesão Encefálica Adquirida (LEA) e desenvolve estudos com pacientes amnésicos e os processos de consolidação da memória.

Aprendendo sobre Neuropsicologia: como fazer?

Ei, você que tem um interesse especial pela Neuropsicologia: já parou para pensar nos diferentes tipos de formação nessa área que tem sido oferecidos aqui no Brasil? Atualmente temos diferentes opções que podem te ajudar a aprender sobre o assunto, desde estágio em hospitais e serviços de neurologia, centros de reabilitação, além de fazer algum curso de especialização. Mas, como saber a atividade que melhor irá atender às suas necessidades num primeiro momento? Como decidir entre cada uma delas, pensando que na maioria das vezes não se pode fazer tudo ao mesmo tempo? E finalmente, como saber se o que você sabe e aprendeu é importante e suficiente para futuramente trabalhar nessa área?

Vamos por partes. É importante que você analise cada opção antes de tomar uma decisão. Vou tentar listar aqui algumas atividades que devem ser pensadas com calma, e que eu diria são decisivas para você que quer investir na carreira de Neuropsicologia.

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Primeiro você deve ter em mente que é preciso:
• Estudar a fundo e de modo sistemático sobre cérebro, cognição e comportamento e entender a relação entre eles em pessoas saudáveis ou com algum comprometimento neurológico.

• Dedicar seu tempo periodicamente ao estudo do funcionamento cerebral, funções cognitivas (atenção, memória, funções executivas etc.), conhecer sobre testes neuropsicológicos e práticas de reabilitação, e sim, ter a prática de todo este conhecimento.

• Ter postura proativa para estabelecer boas relações com colegas, mentores, professores, supervisores, pois isso abre portas para você investir na sua carreira.

Certo. E como fazer isso? Cursos de especialização em Neuropsicologia. Procure se informar sobre os horários do curso, se você se encaixa neles, quem são os professores, se a proposta curricular oferece o que você precisa e quer aprender. Para facilitar vossas vidas, aqui vai uma super dica de um curso do qual conheço os profissionais envolvidos, professores (alguns colegas, inclusive). O link é este aqui e este aqui. Tem uma sessão “depoimentos” que novos futuros alunos podem ler para saber um pouco da experiência que alunos já formados tiveram. Ligue, se informe, pergunte.

Segundo:
• Você deve pedir referências sobre a atuação nessa área para pessoas que já trabalham nela, perguntar como é a dinâmica do trabalho, e como fazer para conseguir oportunidades. Aqui você vai fazendo seu networking também.

• Pesquise os centros, hospitais, profissionais da área de saúde, tire dúvidas com eles (por quê, não?) e tente um estágio com início, meio e fim, com um objetivo claro. Existem vários hospitais, clínicas, centros, mas claro que vou citar mais uma vez o lugar do qual eu tenho formação e ainda continuo. O Centro Paulista de Neuropsicologia.

Só para deixar claro: a ordem que eu expus aqui é só para facilitar a vida, mas não é uma regra. Além disso, nada impede que você faça atividades paralelas, basta conseguir administrar seu tempo, e conseguir delimitar minimamente com o quê gostaria de trabalhar (crianças, adultos, idosos, pacientes com lesões, demências, transtornos do desenvolvimento ou da aprendizagem etc.) para saber que tipo de aprendizagem, formação e contatos profissionais você precisa desenvolver.

Terceiro:
• Encare como um desafio, mas um desafio prazeroso. Não é fácil estudar um tema tão complexo como cérebro, comportamento, cognição. Mas uma coisa eu garanto, quem gosta do que faz, quem dá sentido ao seu trabalho no final das contas sente que está contribuindo com algo, fazendo alguma diferença. Pelo menos eu me sinto assim :)

Além dos cursos de especialização, existem os cursos complementares que nos atualizam, nos coloca em contato com outros profissionais, nos dá um norte, principalmente quando ainda estamos tentando definir com o que trabalhar.

Vou deixar aqui duas recomendações:

1) Curso de Extensão: Reabilitação Neuropsicológica na Infância, oferecido pelo Centro Paulista de Neuropsicologia (clique aqui). No site do centro sempre há oferta de cursos, por isso, fique de olho.

2) Deixo o folder do Curso de Especialização da sede de São Paulo do qual citei acima. Confiram!

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Personalidade e o que nosso cérebro tem a ver com isso

Nada de Freud, ou explicações projetivas. Nada de Rogers, nem correntes humanistas e derivados. Não que eu tenha algo contra essas duas figuras importantes da psicologia e seus respectivos movimentos, mas gostaria de falar sobre personalidade de uma perspectiva biológica.

O fato é que é bastante comum na área da psicologia associarmos o tema personalidade a teorias que nada falam sobre suas bases biológicas e nem como esses processos biológicos são importantes para a formação da personalidade única de cada um de nós. Minha tentativa é a de explorar um pouco este outro segmento, portanto.

Sem querer reinventar a roda, mas só para tomar como ponto básico da questão: a personalidade vai se desenvolvendo ao longo da vida como resultado da interação entre fatores genéticos e ambientais.

Pois bem. Temos observado cada vez mais estudos revelando componentes genéticos relacionados a traços de personalidade principalmente em estudos com gêmeos monozigóticos e dizigóticos. Para resumir a história toda, o que estes estudos falam é que os gêmeos monozigóticos que carregam os mesmos genes (diferentes dos dizigóticos que não carregam), mesmo quando criados separados, ou seja, por famílias diferentes compartilhariam as mesmas características de personalidade. Essa é uma das maiores evidências de que a personalidade, ou mais comumente falando, o “nosso jeito de ser” muito tem a ver com nossos cromossomos, genes, DNA, cérebro, enfim.

Sabemos também que muitos dos genes que carregamos podem estar especificamente ligados a traços de personalidade, como por exemplo, a quantidade de neurotransmissores que temos em regiões específicas do nosso cérebro. Tê-los de mais ou de menos determinariam o modo como nossos comportamentos são regulados, e portanto, nossa personalidade também.

Pensando em tempos um pouco remotos, na década de 1950 pacientes psiquiátricos julgados como “pessoas incorrigíveis” eram submetidos a uma cirurgia chamada lobotomia, um procedimento que hoje já caiu em desuso, e que rompia ligamentos do lobo frontal a regiões subcorticais (mais profundas) do cérebro. Este procedimento era realizado como uma forma de alterar aspectos importantes da personalidade. Para quem não viu o clássico filme Um estranho no ninho, estrelado por Jack Nicholson, fica a dica para conhecer mais sobre o assunto

Agora, já puxando uma sardinha para o meu lado, profissionais que trabalham com Neuropsicologia e Reabilitação hão de concordar comigo: quando uma pessoa sofre uma lesão cerebral na região do córtex pré-frontal, por exemplo, ela pode sofrer mudanças fortes na personalidade. De calma, tranquila e introvertida, a uma pessoa extrovertida, desinibida, impulsiva e socialmente inadequada (por ex.: falar que você está gordo(a) e não perceber o quanto isso é indelicado). Já pessoas que sofrem lesão no lobo temporal (região lateral da cabeça) podem se tornar mal-humoradas, metódicas e obsessivas para seguir regras.

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Enfim, não temos como negar que existe uma base biológica fortíssima que nos ajuda a entender ainda mais este fenômeno. Sabemos que traços, características e temperamentos não se constituem de forma única para explicar nossa personalidade. O que nos torna únicos são nossas interações humanas e o modo como nos relacionamos com o mundo. Por isso cada cérebro, é um cérebro, uma identidade particular e intransferível.

Um gigante acordou

Para quem está acompanhando as notícias deve saber que Michael Schumacher, o heptacampeão (sete vezes) de Fórmula 1 recém acordou de um coma que durou cerca de seis meses. Mais uma vitória para seu histórico de medalhas e taças, não é mesmo?

Nesta semana a revista Isto é publicou uma reportagem sobre Schumy que virou manchete de capa. Ainda não comprei a revista, mas provavelmente falarão sobre seu acidente e a situação em que se encontra atualmente. Além desta reportagem poderemos acompanhar a entrevista de uma sobrevivente de Traumatismo Craniano cujo tratamento de reabilitação cognitiva foi oferecido pelo Centro Paulista de Neuropsicologia, um dos pioneiros no Brasil na área de reabilitação. Para os interessados de plantão, sugiro que tentem acompanhar essas notícias.

Hoje, meu papel aqui é o de ressaltar alguns pontos importantes sobre a situação de pessoas que acordam do período de coma. A principal mensagem é a de que este período após o coma É APENAS O COMEÇO.

Atividade cerebral. Cirurgias. Clipagem. Uso de sonda. Aparelhos para ajudar a respirar. São tantos os desafios para sobreviventes após um acidente cerebral. Embora os progressos possam ser lentos, é possível percebê-los e vibrar a cada novo (e muitas vezes, pequeno) avanço.

O período pós coma ainda é um período delicado, uma vez que é importante saber quais as limitações do paciente e o que ele já é capaz de fazer. Neste momento de cuidados intensivos especiais, contamos muito com ajuda de médicos neurologistas e neurocirurgiões. Ainda no hospital, quando o paciente é levado para o quarto já somos capazes de observar algumas de suas capacidades cognitivas mais elementares como nível de consciência, capacidade de falar ou se comunicar com gestos, reconhecer familiares, ou seguir comandos simples. A recuperação após um acidente grave varia de pessoa para pessoa, mas sem dúvida alguma o tratamento precoce favorece enormemente esses casos.

A Reabilitação Neuropsicológica, como já falei algumas vezes aqui em outros textos, pode incluir uma equipe grande de profissionais. Neurologistas, psicólogos, neuropsicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, fisiatras, terapeutas ocupacionais, precisam trabalhar juntos de forma trans e multidisciplinar, cada um em sua área de especialidade, mas trocando informações com o objetivo de favorecer a recuperação do paciente e possibilitar maior qualidade de vida a ele e seus familiares. É importante ressaltar que o tratamento físico é extremamente importante nesse momento e um dos primeiros a ser realizado. Dependendo do quadro clínico, também é possível trabalhar com as dificuldades da fala, caso elas estejam presentes, e assim, um segundo passo pode ser tomado: observar quais dificuldades cognitivas estão presentes e como podemos trabalhar para compensar esses déficits.

É muito comum dúvidas surgirem após um acidente grave, como por exemplo, “eu voltarei a ser o que eu era?”; “por que agora eu esqueço tudo?”; “será que eu vou ter a memória que eu tinha antes?”; “por que hoje eu sou impulsivo e não consigo controlar meus comportamentos?”; “por que eu mudei?”. Ainda é cedo para dizer, mas muitas pessoas estão se perguntando como será a recuperação de Schumacher e quais progressos podemos esperar. Para aqueles que querem saber como isso poderá acontecer, sugiro a leitura do blog Meu cérebro mudou, construído e elaborado por sobreviventes de acidente cerebral com auxílio da nossa equipe de profissionais. O objetivo é o de relatar suas experiências após acidente cerebral. Eles são os nossos campeões, assim como Schumy é para os fãs de Fórmula 1.

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MUITO HÁ O QUE SER FEITO. Mas podemos fazer muito. E nossos pacientes também! <3