Luciane Simonetti

Psicóloga Cognitiva, Mestranda pelo Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo / UNIFESP e Colaboradora do Centro Paulista de Neuropsicologia (REAB-CPN). Trabalha com Avaliação e Reabilitação Neuropsicológica de adultos com Lesão Encefálica Adquirida (LEA) e desenvolve estudos com pacientes amnésicos e os processos de consolidação da memória.

Página Inicial: http://cienciadocerebro.wordpress.com

Fala, Orlando Bueno!

Caros leitores, colegas e amigos! É com muita alegria que divulgo a primeira entrevista oficial para meu blog. A ideia é poder trazer um pouquinho da visão de figuras importantes na área de Neurociência, Neuropsicologia e Reabilitação (por sinal, tema do blog) sobre como está o cenário do segmento em que atua, seja na pesquisa científica ou na prática clínica. Farei entrevistas com o pessoal fera na área, pessoas que contribuíram com essa Ciência do Cérebro tão linda e empolgante.  Para começar com a série de entrevistas, ninguém menos do que nosso querido Orlando Bueno, mais conhecido como Ofa, meu professor orientador, mestre dos magos! Foi um bate-papo muito interessante, me enriqueceu muito como estudante e pesquisadora e espero que contribua para o conhecimento de vocês também. Valeu cada palavra, cada linha, cada ideia! Para quem quiser saber mais sobre ele, é só clicar aqui. Ele é a nossa celebridade da interface Ciência e Neuropsicologia.

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Espero que curtam e compartilhem aí com seus parceiros. Vejo vocês nos comentários, até lá!

 

[Eu] Professor, é uma honra poder entrevistá-lo, entender um pouquinho melhor sua visão sobre a Neuropsicologia, essa área que tem crescido tanto nos últimos anos. Gostaria de começar perguntando como o Sr. vê a neuropsicologia hoje enquanto um campo de conhecimento e enquanto prática do neuropsicólogo e outros profissionais da saúde?

Professor: A neuropsicologia teve um desenvolvimento muito grande a partir da segunda metade do século XX (1950 em diante), com trabalhos sobre memória, linguagem, afasia, agnosia. Em memória, o destaque foi o caso H.M., que propiciou um grande desenvolvimento das pesquisas sobre o tema. Juntamente com isso, nessa época foi despertado pelo caso H.M. um interesse muito grande pela neuroanatomia. Então foi uma época de revolução na neuroanatomia experimental com o desenvolvimento de técnicas de coloração, e nesta época também se descobriu muito sobre hipocampo. A principal estrutura afetada no caso do H.M. e que além dessa, outras estruturas relacionadas estariam envolvidas muito criticamente com memória. Então, de lá para cá tem havido um desenvolvimento muito grande com pacientes, estudo em animais (memória), além de muitas técnicas. E também, a partir dessa época por volta dos anos 50 e 60 houve um grande desenvolvimento da Psicologia Cognitiva. Tudo isso se somou também dentro da medicina e neurologia. Foi daí para frente que houve uma explosão de trabalhos e a neuropsicologia moderna surgiu por volta dessa época. Hoje, continuam todos esses trabalhos com enfoques muito variados, inclusive com o desenvolvimento de técnicas de reabilitação cognitiva com pacientes com diversos tipos de lesão e pacientes com doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer.

 

[Eu] Daria para dizer que naquela época havia um desenvolvimento mais em pesquisa básica e, claro também clínica, mas que hoje todo esse histórico levou ao desenvolvimento de uma neuropsicologia mais voltada para a reabilitação?

Professor: Não. Há um outro fator que também surgiu mais ou menos a partir da segunda metade do século XX para os estudos de neurociências em geral: fisiologia do sistema nervoso, eletrofisiologia, psicofarmacologia que nasceu na década de 50 e que já se pensava no tratamento de pacientes psiquiátricos. Mais recentemente, temos as técnicas de imageamento, tecnologia avançada de neurofisiologia e eletrofisiologia que impulsionou muito essa área de neuropsicologia. Então, a gente consegue estudar muito o cérebro e relacionar com o comportamento, com a atividade mental, com as doenças que afetam o sistema nervoso com o uso dessas novas ferramentas. Inclusive, agora temos acesso a atividade cerebral em voluntários saudáveis, sem lesão, sem doença. Tanto na neuroimagem, como eletrofisiologicamente. Houve esses dois momentos que estão levando ao desenvolvimento muito grande em neurociência e neuropsicolgia, em especial.

 

[Eu] Qual seria a importância que a neuropsicologia tem para as pessoas que trabalham com saúde, mais especificamente os psicólogos?

Professor: A neuropsicologia sempre abriu um caminho novo para os psicólogos que trabalham nessa área. Lembrando de novo o paciente H.M. que foi submetido a neurocirurgia, houve não só o tratamento clínico com serviço psicológico, mas o desenvolvimento de técnicas para estudar o que aconteceu com a memória desse paciente depois dessa cirurgia. E a pioneira desse estudo foi Brenda Milner que é psicóloga. Não só nessa área que surgiu uma nova possibilidade para atendimento profissional para psicólogos, mas também fonoaudiólogos, terapeuta ocupacional e todas essas áreas relacionadas. É um novo campo de atuação dos profissionais nessas áreas.

 

[Eu] E o que o Sr. acha sobre essa exclusividade que se deu ao psicólogo para o uso de testes psicológicos e neuropsicológicos. Qual a opinião do Sr.? Poderia ser ampliado para outros profissionais? Ou seja, o pensamento neuropsicológico pode ser desenvolvido em qualquer pessoa, não é?

Professor: Bom, o pensamento neuropsicológico não é só para o psicólogo. Precisa lembrar que quem atuou primeiro em neuropsicologia não foi o psicólogo. Aqui no Brasil havia médicos, neurologistas, fonoaudiólogos e no exterior também. E essas diversas áreas também realizam pesquisas, desenvolvem testes e muitos destes testes não são desenvolvidos por psicólogos. São testes, por exemplo, de terapia ocupacional, ou testes de fonoaudiólogos. Então, eu não concordo com essa limitação de uso desses instrumentos só para psicólogos. Inclusive, também na clínica médica, neurologista, psiquiatra, utilizam e desenvolvem também instrumentos que não diferem muito daqueles que o psicólogo aplica. Isso é um entrave para o desenvolvimento não só para a área da pesquisa, mas é um prejuízo para o paciente. Ele deveria ter um atendimento multiprofissional, o que não é possível fazer na maioria das vezes num consultório. E também não é possível você ficar consultando diversos profissionais, mandar ele fazer um teste disso e daquilo com várias pessoas. Então, deveria haver uma maior abertura para que esses profissionais tivessem experiências conjuntas, cada um contribuindo mais especificamente com seu conhecimento, mas sem esse impedimento, algo como “bom, agora eu vou cruzar a linha do campo, então vou ficar de fora porque eu aplico um teste que é neuropsicológico”. É lógico que isso deveria ser aberto para outros profissionais, sendo que é obrigação de todos eles ter um conhecimento geral de neuropsicologia e reservar-se a essas áreas específicas para aquilo que é realmente do conhecimento e interesse só de cada uma dessas áreas. Inclusive para desenvolver instrumentos adequados.

 

[Eu] Vamos dar uma ênfase um pouco mais conceitual agora. O neuropsicólogo precisa ser um neurocientista, ou o neurocientista precisa ser um neuropsicólogo? Porque sabemos que existe uma aproximação muito grande entre as duas áreas do conhecimento, embora a neurociência estude o sistema nervoso de forma geral, mas se aproxima muito do conhecimento da neuropsicologia. Qual é a postura que um ou outro precisa ter diante destas duas áreas do conhecimento?

Professor: Existe uma área que é a aplicação clínica da neuropsicologia. Não obrigatoriamente o neuropsicólogo precisa desenvolver pesquisa na área. Mas o neuropsicólogo deve ter algum conhecimento mais geral da neuropsicologia além das suas técnicas de intervenção. É preciso um mínimo de conhecimento para saber como o cérebro funciona. Por outro lado, um neurocientista normalmente não está interessado, ou não se dedica ao tratamento individual de pacientes ou de grupos, enfim. Ele quer desenvolver conhecimento nessa área. Ele trabalha desde os animais (um exemplo clássico foi o Kandel que estudou a Aplysia),  e outros estudos em várias espécies animais etc., e muito pesquisador neurocientista estuda também o ser humano. Não estão voltados para a clínica necessariamente. Agora quem está desenvolvendo estudo mais voltado para a clínica neuropsicológica tem que saber alguma coisa de neurociência ou trabalhar com grupos que fazem neuropsicologia clínica e que são grupos especializados em várias patologias diferentes. Mas, o ideal é sempre um trabalho em colaboração com essas diferentes áreas. E não precisa ser só o neuropsicólogo, psicólogo, fonoaudiólogo, existem outras matérias de interesse. Temos que ter algum conhecimento em estatística, ou saber como as drogas atuam no sistema nervoso. Temos que ter alguma noção de neuroanatomia, saber que o cérebro é constituído por células como qualquer parte do corpo. Claro que o neurocientista precisa conhecer isso tudo mais a fundo, mas todo mundo deve ter conhecimento básico disso.

 

[Eu] E o que o Sr. acha sobre esses modismos de “neuro”, por exemplo, neureconomia, neuroética, neuromarketing. Porque são outras áreas tomando o conhecimento das neurociências para explicar um fenômeno, certo?

Professor: O fato de alguma outra especialidade recolher conhecimento da neuropsicologia para desenvolver algum aspecto da sua atividade, isso é normal acontecer em ciência. A gente também utiliza pensamentos fora da neuropsicologia, da psicologia. Na filosofia também temos que conhecer de ciências humanas. Cada um pode realmente utilizar o conhecimento dos outros. Se hoje em dia muita gente faz eu não posso criticar isso. Eu não sei qual é a prática dessas diversas atividades, mas enquanto uma prática acadêmica isso é o normal. Quanto mais conseguir interessar pessoas em áreas diferentes, se você conseguir a colaboração de outras pessoas, por exemplo, engenharia, física, e eles tiverem que fazer algum estudo, precisamos desses profissionais, não vejo nada de errado. Não é contraproducente. É o desenvolvimento da ciência, se vai dar um resultado positivo ou não, eu não sei. Acredito que sim.

 

[Eu] E para o Sr. qual é o futuro da neuropsicologia, tanto em termos de pesquisa, quanto no tratamento de pessoas que precisam desse conhecimento?

Professor: Bom, a neuropsicologia tem características convencionalmente da neurociência, é uma área que lida com o cérebro, a mente, o comportamento. Mas ela se beneficia de todos esses estudos e de todas as outras diferentes áreas. Eu acho que ela vai cada vez mais depender ou absorver esses conhecimentos. O futuro da neuropsicologia está na tecnologia cada vez mais avançada para entender como funciona o cérebro. E o neuropsicólogo precisa entender essa tarefa, como funciona o cérebro. E do ponto de vista da aplicação também. Está havendo um desenvolvimento de novas técnicas muito grande para estudar o cérebro e o comportamento. Por exemplo, o neurofeedback. Enfim, todas essas áreas, a genética, epigenética, tudo isso, a gente vai ter que trabalhar em conjunto. O neuropsicólogo não vai poder ser um geneticista, mas ele vai ter que trabalhar com geneticistas e vai ter que trabalhar também para estudar, compreender ou intervir também na escola, no ambiente de trabalho, enfim, todas essas atividades o neuropsicólogo precisa se fazer presente. E para isso técnicas estão sendo desenvolvidas, não só as técnicas, mas pensamentos, e maneiras de pensar completamente diferente. Isso vai fazer o futuro da neuropsicologia, não há como escapar. Neuropsicologia é uma atividade, um núcleo de atividade, mas sempre em conjunto com outras áreas ao redor. E cada vez mais, eu acredito que essas áreas vão beneficiar a neuropsicologia, e a neuropsicologia vai beneficiar essas áreas. Eu acho que é esse o futuro. Do ponto de vista do mercado de trabalho para o neuropsicólogo, eu não sei. Meu pensamento não está voltado para isso. Essa é uma questão conjuntural que aqui no Brasil são definidas algumas profissões, outras não, outras serão definidas depois. Então a minha ideia é que sejam criadas as redes de colaboração dentro de diversas profissões.

 

[Eu] O que é preciso fazer ainda para avançarmos ainda mais? Talvez fortalecer essas alianças com outros profissionais e que nosso trabalho seja cada vez mais completo?

Professor: Sem dúvida! Acho que vão surgir esses momentos que vão ser impostos pela realidade. Não é chegar simplesmente e dizer “agora vou tratar fulano independente do resto que está acontecendo no mundo”. É uma questão de mercado que vai se impor, de quem conseguirá realizar um trabalho satisfatório com essas técnicas todas, e que vão se abrir muitas possibilidades de tratamento. Então você não pode ficar no seu cantinho e aqui ninguém tasca. Não é assim. Cada vez mais são criadas redes de colaboração, diversas profissões e profissionais especializados em diferentes áreas. Isso em tratamento, e no desenvolvimento da ciência então, nem se fala! Nem tem cabimento você pensar de maneira diferente.

 

[Eu] E como está o cenário da neuropsicologia no Brasil?

Professor: Começou com médicos, muitos neurologistas, fonoaudiólogos, depois criaram a Sociedade Brasileira de Neuropsicologia.

 

[Eu] Começou lá na União Soviética, Reino Unido, Itália, Alemanha, EUA. Mas comparado com esse pessoal de lá, em que pé o Brasil está. Estamos muito atrasados? Professor: Em termos de desenvolvimento científico, sim. Muito atrasados.

 

[Eu] E de prática clínica? Professor: Prática clínica exige um envolvimento do neuropsicólogo, corpo a corpo. Nesse aspecto não estamos tão atrasados, estamos conseguindo acompanhar. Com exceção de algumas áreas que exigem um pouco mais de tecnologia que já é algo corriqueiro lá fora e que aqui ninguém se preocupa muito em conseguir, por exemplo, uma ressonância. Agora, essa é a vanguarda da neuropsicologia. Existe um outro lado que é a retaguarda, que tudo bem, a neuropsicologia está avançando, conquistando espaço para atender as demandas, mas muitas e muitas das vezes não existe trabalho de neuropsicólogo como deveria existir. A vanguarda, acho que está conseguindo acompanhar. Temos alguns atrasos, algumas deficiências de tecnologia, mas em termos de pensamento e intervenção, tratamento e reabilitação, acho que a vanguarda está caminhando bem. Por outro lado, lá atrás isso precisa ser desenvolvido. Agora, o sinal positivo é que está havendo. Há muita gente procurando se manter atualizado, querendo saber de intervenção neuropsicológica. Procura por cursos de especialização, estágio na área está aumentando,  isso é um sinal positivo.

 

** A entrevista foi totalmente cedida para divulgação neste espaço e acordada anteriormente com o entrevistado.

Orlando Francisco Amodeo Bueno é formado em Psicologia, Livre-Docente do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo / UNIFESP, desenvolve várias pesquisas acerca da cognição humana, sendo a memória seu principal foco de interesse.

 

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O cuidado com nossas janelas de oportunidade – parte II

Para quem curtiu a primeira parte do texto sobre este assunto, seguem agora outras informações valiosas sobre a importância que a interação organismo-ambiente tem sobre o desenvolvimento. Todo mundo sabe disso, não é mesmo? O “x” da questão é QUANDO propiciar essa interação e DE QUE FORMA.

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Vamos apenas recapitular rapidamente: no último texto falei que somos modulados pelas nossas experiências e que elas influenciam nosso cérebro, certo? Sabemos também que algumas experiências podem influenciar o desenvolvimento de habilidades OU para desfavorecer o curso natural do desenvolvimento. Isso mesmo!

Vejamos o seguinte: se existem janelas de oportunidade (momento oportuno para adquirir habilidades incríveis), quando essas mesmas janelas estiverem abertas e não as aproveitarmos, além de não favorecer nossos cérebros podemos “machucá-los”. Vou explicar.

Quando nascemos apresentamos uma capacidade máxima de sinapses.  Um processo natural é o descarte de algumas dessas sinapses (desbastamento), uma vez que nestes primeiros anos de vida está ocorrendo uma organização do cérebro e as células estão se diferenciando umas das outras, assumindo conexões e consequentemente algumas funções. Agora vamos imaginar que no meio deste processo extremamente importante, algo externo interrompe essas formações, conexões, funções cerebrais. É aí que mora o perigo! Alguns exemplos bem simples e clássicos: gestantes que ingerem álcool ou drogas podem levar a má formações congênitas; partos complicados podem levar a anóxia (falta de oxigenação no cérebro durante o nascimento); bebês pequenos podem sofrer lesões cerebrais desde os primeiros meses de nascimento se sofrerem alguma queda… há inúmeros exemplos.

É preciso compreender que existem sérias repercussões sobre a formação de diversas competências, tanto cognitivas (na linguagem, no pensamento, na inteligência, por exemplo), como também nas habilidades sociais ao longo do desenvolvimento.

Na ciência, um exemplo clássico que explica bem esse fenômeno dos períodos críticos do desenvolvimento é o que chamamos de imprinting, que do inglês quer dizer impressão. O imprinting ocorre quando o animal (aves, mais especificamente) aprende a associar o primeiro objeto em movimento após seu nascimento como pertencente a sua espécie. Isso ocorre por meio de uma programação específica de vinculação. Assim, consideramos esse comportamento adaptativo do ponto de vista evolutivo, pois garante que o filhote recém saído da casca do ovo fique perto da sua mãe.

No entanto, Konrad Lorenz descobriu na primeira metade do século XX que a impressão adequada nem sempre é possível. Ele demonstrou que se o primeiro objeto em movimento que aves bebês vissem fosse um ser humano, elas o seguiriam como se fosse sua mãe. A foto abaixo mostra ele sendo seguido por um bando de filhotinhos de ganso. A grande descoberta é que a longo prazo a impressão incorreta pode levar a sérias consequências no desenvolvimento. No caso das aves, estas podem direcionar seu comportamento sexual para seres humanos.

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Você deve estar se perguntando: “mas instintivamente os animais não deveriam saber quem é sua verdadeira mãe?”. Sim, mas não instintivamente porque o imprinting sugere que provavelmente as estruturas cerebrais se alteram rapidamente quando um novo comportamento se instala. Isto significa que se nosso cérebro é capaz de se modificar devido a interação entre componentes genéticos e ambientais, podemos supor que o cérebro passa por um processo chamado plasticidade cerebral, considerado hoje um dos fenômenos mais importantes do cérebro.

A descoberta desses fenômenos (há outros exemplos também, como em macacos) nos ajuda a entender de que forma eventos externos podem alterar o desenvolvimento do cérebro, gerando possivelmente transtornos comportamentais crônicos, seja na infância, adolescência ou vida adulta. Não podemos subestimar quanto um ambiente conturbado, violento, negligente ou sem estimulação nenhuma custe para o cérebro em desenvolvimento. E refiro-me principalmente as crianças. É preciso cuidar bem delas, ter responsabilidade em sermos pais ou mães.

Espero que estes dois textos tenham servido não só para informar, mas também para alertar sobre o como nosso cérebro é frágil, mas seguramente dotado de uma capacidade incrível de se adaptar às mudanças internas e externas. Sugestões, comentários, críticas serão bem vindas!

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Nossas janelas de oportunidade – parte I

Você já parou para pensar por que e como algumas pessoas desenvolvem múltiplas habilidades e são realmente boas no que fazem? Sabe aquele sujeito que fala várias línguas, sabe tocar instrumentos musicais difíceis como violino, piano, bateria, gaita e por aí vai? E aqueles desenhistas, pintores e artesãos que parecem que “nasceram com o dom”?

Sem tirar o crédito do esforço e estudo de vários artistas (sim, a arte é uma habilidade que pode ser desenvolvida ao longo da nossa existência, de acordo com nossas experiências – esse é o tema do post), é claro que existem aqueles sujeitos com habilidades inatas. Por exemplo, pessoas com a Síndrome de Asperger podem apresentar habilidades artísticas sensacionais como a pintura exata de pessoas reais. Em contrapartida, demonstram prejuízos severos em interação social. Suspeita-se de que grandes gênios da história da humanidade tinham essa síndrome, basta pesquisar.

A explicação da neurociência é que essas pessoas consideradas “multiaptas” ou com habilidades bem desenvolvidas possuem um cérebro diferente. Parece um contrassenso pensar assim, já que somos da mesma espécie (homo sapiens), e que macroscopicamente nossos cérebros têm praticamente o mesmo peso, as mesmas estruturas e estão alocadas de modo particularmente semelhante. Portanto, dispomos do mesmo arcabouço neuronal se pensarmos que estes cérebros tiveram um desenvolvimento considerado adequado. Mas, se pegarmos 10 cérebros, todos eles terão suas características próprias, com fissuras e giros levemente diferentes, e com conexões neuronais diferentes! Por quê?

Vamos pensar no seguinte: todos nós somos modulados por experiências diferentes, damos um significado diferenciado, um colorido particular para cada aprendizado. Isso significa que a influência que nosso cérebro recebe do ambiente externo também é diferenciado, e logo, essas conexões terão suas idiossincrasias, suas particularidades, levando a alterações na estrutura cerebral. Isso nos leva a pergunta inicial e ao tema deste texto. Por que algumas pessoas são capazes de atividades que para nós parece impossível? E mais, por que na fase adulta, aprender uma nova língua, um novo instrumento musical, ou pintura em pratos de porcelana é algo tão dispendioso e difícil?

O que se sabe há um bom tempo é que existem períodos de desenvolvimento cerebral cuja experiência é importante para em primeiro lugar, levar a um desenvolvimento adequado. Segundo, que se o cérebro for exposto em momentos OPORTUNOS do seu desenvolvimento, então habilidades podem ser incrivelmente e facilmente desenvolvidas. A lógica inversa é igualmente cabível: se nosso cérebro é privado de um aprendizado nestes períodos críticos, então essa habilidade não é adquirida ou é tardiamente desenvolvida com um esforço muito maior.

É a isso que damos o nome de janelas de oportunidade, cujo nome é usado para fazer a seguinte analogia criada por Richard Tees: imagine que estamos viajando num trem e que no início da viagem todas as janelas estão fechadas, como quando ainda somos um feto. Quando nascemos e nos desenvolvemos, algumas janelas vão se abrindo com o objetivo de expor nosso cérebro a incríveis experiências, como o som, as cores, os odores, podendo gerar uma série de sinapses. Todavia, se o cérebro se ausenta desta exposição enquanto estas janelas vão sendo abertas, o desenvolvimento pode ser muito prejudicado. Conforme vamos crescendo estas janelas vão se fechando de modo permanente e impedindo que nosso organismo assuma certas funções. Da mesma forma, se o cérebro APROVEITA a oportunidade para aprender no momento certo, então ele dará o seu melhor, o seu potencial máximo, garantindo uma aprendizagem mais fácil e prazerosa.

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Na prática, isto equivale a dizer que as crianças expostas a experiências de aprendizagem de uma segunda língua, de uma dança, ou de um instrumento musical possuem uma facilidade maior comparada aos adultos. Elas estão alterando estruturalmente seus cérebros a partir da experiência oportuna da fase de desenvolvimento em que se encontram. Por isso, não é lenda: crianças têm uma facilidade maior para aprender novas habilidades porque seus cérebros estão repletos de neurônios se conectando, estão nos seus picos máximos de sinapses se formando.

Agora, o conhecimento disto nos leva a pensar na seguinte medida: cabe principalmente aos pais e aos professores oferecer amplas OPORTUNIDADES aos cérebros infantis para que eles se desenvolvam no seu melhor potencial. É claro que não vamos enxurrá-los com estimulação excessiva, mas sim, podemos oportunizar experiências que para os pequenos sejam prazerosas e divertidas, assumindo um cérebro cheinho de conexões!

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