[Neuro]patologia da amnésia

Dando continuidade ao tema do último post, hoje pretendo discorrer sobre um assunto muito interessante, principalmente para pesquisadores (como eu) interessados pelas recentes descobertas da neurociência. Refiro-me aos muitos estudos sobre a amnésia, tanto em humanos como em animais.

Em primeiro lugar, vamos à definição do termo:

AMNÉSIA é uma manifestação cognitiva e refere-se à um déficit de memória, que pode se apresentar total ou parcialmente em estado de comprometimento.

A amnésia pode ser temporária quando, por exemplo, um indivíduo leva uma pancada de leve na cabeça, levando-o ao desmaio, mas esquecendo-se apenas de eventos que ocorreram pouco antes do golpe. Geralmente ocorre em esportistas, como jogadores de futebol, boxeadores ou lutadores de vale tudo. Há também, cada vez mais comum, a amnésia alcoólica em que a quantidade de bebida ingerida pode determinar quais memórias serão ou não preservadas, fazendo com que o sujeito não se recorde de muitos eventos ocorridos após o efeito do álcool ter se dissipado. Por outro lado, quando áreas específicas do cérebro são danificadas, a amnésia pode ser permanente.

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É importante descrever os dois tipos de amnésia descritos na literatura. A amnésia retrógrada (AR) e a amnésia anterógrada (AA). Na AR o indivíduo perde a capacidade de evocar informações do seu passado, como por exemplo, onde e quando nasceu, quantos filhos tem, em que cidade morou. Ao passo que na AA há uma incapacidade de reter novas informações, isto é, o indivíduo não consegue “aprender” como antes, uma vez que o uso do componente de memória responsável por essa habilidade (memória explícita) está prejudicada (o tipo de memória preservada em pacientes amnésicos, chama-se memória implícita, que é um tipo de memória mais “automática”).

As principais causas da amnésia são:

– Traumatismo crânio-encefálico (acidente de trânsito, queda, agressão devido a assalto)

– Acidente vascular cerebral (que pode ser hemorrágico ou isquêmico; e por golpe)

– Infecção cerebral (encefalite, meningite)

– Hipóxia ou anóxia (falta de oxigênio no cérebro)

– Tumor cerebral (meningioma)

– Síndrome de Korsakoff (ingestão crônica de álcool)

– Outros…

Todas essas causas podem lesionar diversas regiões do cérebro responsáveis pela memória, como o hipocampo, uma estrutura que retém/armazena as informações que recebemos do mundo. Quando esta região é danificada permanentemente nossa capacidade de consolidar, armazenar e evocar informações não desempenha mais o mesmo papel com a qualidade de antes.

Em meu trabalho com Neuropsicologia, tanto na área clínica quanto na área de pesquisa tenho observado idiossincrasias em pacientes amnésicos, mas de uma forma geral, na prática clínica a divisão conceitual que a literatura faz dos tipos de amnésia não é tão delineada. Em pacientes que possuem comprometimento da memória esses dois tipos de amnésia (anterógrada e retrógrada) não se apresentam de forma única, uma vez que os pacientes podem apresentar os dois tipos de amnésia em níveis e intensidades variadas. Por esse motivo que muitas pesquisas estão sendo desenvolvidas para compreender os mecanismos e processos envolvidos na memória, as regiões responsáveis por cada subtipo, os diferentes tratamentos, e os métodos de trabalhos mais eficazes para cada tipo de déficit.

 [o esquema abaixo representa os conceitos de amnésia retrógrada e anterógrada]

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Particularmente, na pesquisa que tenho desenvolvido com pacientes amnésicos, procuro compreender sob quais condições esses pacientes conseguem reter uma quantidade maior de informações quando estas são apresentadas uma única vez. Além disto, um dos principais objetivos deste estudo é o de tentar tornar mais nítidas quais variáveis estariam envolvidas nos processos de consolidação da memória (guardar informação).

Encontro-me numa difícil tarefa, pois os resultados deste estudo têm gerado diversas questões que ainda precisam ser respondidas. Por outro lado, tem me movido nesta busca por um entendimento mais claro do papel que a memória desempenha tanto em cérebros comprometidos, quanto em cérebros sadios.

Não tenho dúvidas de que em breve teremos grande parte das respostas para essas dúvidas sobre essa incrível máquina que chamamos cérebro. Coming soon!

Dica de leitura: Para os curiosos de plantão sobre o tema do post, sugiro pesquisarem sobre o famoso “caso H.M”, um paciente que sofria de epilepsia do lobo temporal medial (região localizada na parte lateral da cabeça) e que foi submetido a uma cirurgia com o intuito de diminuir o foco das crises. Por conta da cirurgia, passou a ter dificuldades de reter novas informações.

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96 pensamentos sobre “[Neuro]patologia da amnésia

  1. Oiii boa tarde tudo bom? minha amiga escorregou e bateu a nuca no domingo dia 26/11/17, no mesmo momento ela nao se lembrava mais das coisas e estava muito repetitiva, foi levada ao medico fez tomografia e os outros exames e deram normais, depois de uns 4 dias foi repetido denovo o exame, e agora deu bem alterado o eletroencefalograma, os outros estao normais mas este deu alterado .. o medico disse pra voltar daqui quinze dias e se nao tiver melhorado vai tomar remedio por um ano .. tem algo que a gente possa fazer pra ajuda-la, ela só se lembra de coisas que aconteceram ate maio .. 😦 e depois disso so alguns flash’s , ela ta muito assustada, parece q ela tem medo de falar com a gente, parece q somos estranhos, mas estamos na vida dela faz anos e anos já , queria muito ajuda-la , mas sinceramente nao sei como, e a gente ta muito preocupado com ela, ela é esposa, mae de tres filhos, e parece q ela ta meio parada no tempo mesmo .. se puder me responder eu agradeço Deus abençoe ❤

    • Boa noite! Em se tratando de cérebro, é possível que esses sintomas desapareçam com o tempo. Nesse momento, tentem mantê-la calma, digam que estão ao lado dela e que querem ajudá-la. Não forcem a tentar lembrar dos eventos, deem espaço e tempo para que as coisas se assentem com o tempo. Se o que você me contou continuar ou trazer muito sofrimento a ela, recomendo passar com neuropsicólogo para iniciar um tratamento.

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