Uma pausa para a matriz de Phineas Gage

Prezados leitores, tenho certeza de que alguns de vocês possam estar pensando: “- E a parte II do texto de reabilitação que você prometeu?” e eu respondo: “- Ávidas mentes brilhantes! Faremos uma pausa para falar do legado de Phineas Gage”. (A primeira parte dessa fala eu tomei emprestada do personagem que interpretou John Nash no filme “Uma mente brilhante”. Pois é, agora que eu tenho um blog e alguns seguidores me sinto no direito, hehe!).

Bem, brincadeiras à parte, gostaria de compartilhar com vocês alguns detalhes importantes de um dos casos clínicos mais famosos da História da Neuropsicologia e que possibilitou uma série de estudos acerca da relação cérebro-comportamento. O caso Phineas Gage é muito citado nos textos de Neurociência, mas principalmente de Neuropsicologia, pois o estudo das funções cognitivas / cerebrais relacionadas diretamente ao comportamento, personalidade e emoção é de grande interesse para essa área em especial.

Então, vamos aos fatos:

Por volta do ano de 1848 na Nova Inglaterra, Phineas estava trabalhando numa construção civil como capataz da obra. Ele e sua equipe estavam construindo uma estrada de ferro e uma das principais tarefas na ocasião era assentar os trilhos da ferrovia. Para isso, seria necessário explodir as rochas utilizando um rastilho (barra de ferro) e pólvora que eram colocados em buracos como procedimento necessário para fazer as explosões. Um pequeno deslize poderia ser fatal. Seria preciso colocar areia antes da pólvora no rastilho, mas uma pequena distração fez com que Gage calcasse a pólvora sem areia fazendo a barra de ferro atravessar seu crânio pelo lado esquerdo da face e sair pelo topo da cabeça. Inacreditavelmente, Gage sobrevive e mais incrível ainda ele permanece consciente no momento do acidente. O que ninguém esperava é que sua personalidade mudasse em decorrência de um acidente que ele escapou. O protagonista desta história era uma pessoa distinta, organizada, metódica, extremamente responsável e eficiente. Após essa lesão cerebral, ele passou a ser um sujeito vacilante, pouco respeitoso com seus colegas e utilizava-se de linguagem obscena. Gage havia mudado completamente. Final da história: mudou-se para várias cidades, trabalhando como cocheiro, depois em uma fazenda e aos 38 anos faleceu pelas fortes convulsões que passou a ter.

Este caso só ilustra como nosso cérebro e nossos comportamentos estão diretamente relacionados. Eu diria até que nosso cérebro é que “causa” nossos comportamentos (é claro que estou simplificando, mas basicamente é isso). Phineas Gage foi um sobrevivente de um terrível acidente, embora seu caso tenha permitido aos médicos e especialistas da época estudar essa fascinante “máquina” que chamamos cérebro. Foi surpreendente observar como Gage estava fadado a comportamentos inadequados em virtude de um cérebro danificado. Suas alterações de personalidade não eram nada sutis, pois já não era capaz de fazer escolhas, de organizar-se, de planejar, ou de cumprir pequenas metas. Muito mais que isso: Gage não era capaz de prever as consequências de seus comportamentos pela falta de um componente extremamente valoroso para a tomada de decisão: a emoção. Sim, hoje já se tem comprovado cientificamente que razão e emoção estão intimamente relacionadas. Diferente do que se pensava, não somos capazes de tomar decisões sem o componente emocional que nos ajude a modular e regular a tomada de decisão. A emoção nos permite a não nos colocarmos em risco, a buscar satisfação ou a evitar situações danosas. Mas isso é uma looooonga história e tema para um futuro post.

Por hora, apreciem a foto do crânio recuperado de Gage.Imagem

2 pensamentos sobre “Uma pausa para a matriz de Phineas Gage

  1. Pingback: Funções executivas e o mal estar na lesão « Ciência do Cérebro

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