O papel da Reabilitação Neuropsicológica – parte II

De volta ao blog depois de uma semana muito importante (talvez a mais importante do ano), gostaria de compartilhar com vocês a segunda parte do texto sobre Reabilitação. Pois é, eu sei que tomei o caminho inverso. O ideal seria falar primeiro de Avaliação Neuropsicológica para depois adentrar em Reabilitação. No entanto, acabei atendendo a pedidos e considerei mais importante “pegar um atalho”, enfim!  =)

Mas, vamos lá! Nessa segunda parte presumo que agradaria muito aos leitores algo mais específico sobre reabilitação e por isso resolvi descrever um caso clínico como exemplo. Foi um trabalho bastante breve do qual eu e uma colega tivemos total suporte de toda a equipe do serviço de atendimento ao adulto (REAB) do Centro Paulista de Neuropsicologia. Trata-se de um caso de amnésia grave, em que a pessoa assistida foi submetida a avaliação neuropsicológica e em seguida a uma intervenção breve baseada em Modelo Experimental de Caso Único. Neste tipo de estudo é incluída a observação sistemática, a manipulação de variáveis, as medições repetidas e a análise de dados. Portanto, trata-se de um estudo bastante minucioso e sensível a identificar as principais dificuldades do indivíduo.

Por questões éticas, seu nome não será divulgado. Daqui por diante, irei me referir à paciente por “V.”.

V. é uma mulher de 49 anos de baixa escolaridade que foi encaminhada ao nosso serviço para avaliação das funções cognitivas. Ela foi vítima de um Acidente Vascular Cerebral Hemorrágico que comprometeu seriamente suas capacidades de visuo-construção, funções executivas e principalmente memória. Mais especificamente, V. adquiriu amnésia anterógrada (dificuldade de reter novas informações) impedindo-a de realizar tarefas do dia a dia. Tendo em vista que a reabilitação tem como premissa básica a presença de familiares ou cuidadores, este caso foi bastante difícil de ser realizado, pois V. morava apenas com o filho que passava o dia todo no trabalho. A solução foi envolver membros da família estendida e por sorte, V. foi acompanhada de perto pela tia que morava próximo à sua casa.

Após a avaliação neuropsicológica, tentamos identificar as principais dificuldades enfrentadas por V. no dia a dia em tarefas simples como, escovar os dentes, pentear os cabelos, tomar banho ou encontrar objetos perdidos pela casa, cuja situação era bastante frequente. Assim, iniciamos o trabalho com V. utilizando tabelas de monitoramento comportamental. Nesta tabela, V. deveria assinalar diariamente (ou seja, de segunda à domingo) com um “x” em uma das três opções para cada comportamento: “Fez sozinha (  )”; “Foi lembrada (  )”; ou “Não fez  (  )”. Estas informações recolhidas semanalmente eram observadas cuidadosamente e serviram como linha de base para verificarmos se nossas intervenções estavam sendo eficazes.

Imagem

Ao identificarmos que V. estava tendo problemas sérios com o manejo dos medicamentos receitados pelo médico, iniciamos a intervenção sobre o comportamento de “tomar os remédios nos horários corretos” e incluímos mais esta variável na tabela de medida comportamental. Entretanto, problemas secundários ao comportamento de “tomar remédio” foram observados, como desorientação temporal. Descobrimos que V. não estava orientada no tempo, perdia-se nos horários e dias da semana, e portanto, não teria condições de seguir com o tratamento medicamentoso sem antes se beneficiar de um treino de orientação. Assim, incluímos como medida interventiva a orientação do tempo por meio de calendário mensal com os respectivos dias da semana. Ensinamos nas sessões subsequentes como identificar o dia da semana, “abrir o dia” com um círculo em torno do dia correspondente, e “fechar o dia” com um “x” quando fosse dormir.

V. se beneficiou muito desta estratégia e já estava conseguindo tomar os medicamentos nos horários corretos (com suporte de sua tia, claro).

Foi bastante gratificante realizar este tipo de estudo (modelo experimental de caso único), pois possibilitou o monitoramento dos ganhos, a inclusão de novas medidas de intervenção e a avaliação de resultados obtidos.

Assim, o papel da reabilitação neuropsicológica em adultos é:

A)   Orientar a pessoa comprometida e sua rede familiar sobre a lesão cerebral (ou outro tipo de comprometimento) e suas consequências;

B)   Observar com cuidado quais são as principais dificuldades FUNCIONAIS (aquelas que fazem parte do cotidiano);

C)   Rever e implementar novas estratégias quando necessário;

D)   Fornecer cuidadosamente apoio a uma nova percepção sobre a identidade “pós-lesão”.

Sobretudo:

Podemos observar que o papel da reabilitação é tornar o sujeito mais autônomo, independente, adaptado ao seu ambiente, visando além disso, o suporte emocional (autoestima, motivação) e subsidiando melhor qualidade de vida à ele e pessoas do seu convívio.

5 pensamentos sobre “O papel da Reabilitação Neuropsicológica – parte II

  1. Adorei ler seus textos, na Sindrome Landau klefener com acompanhamentos terapeuticos (musicoterapia, equoterapia e ocupacional) em uma criança com 4 anos de idade pode ter melhora consideravel mais tarde?

    • Olá Clara, que bom que gostou! Do que se conhece desta síndrome o prognóstico é bastante variável e não se reconhece uma “cura”, mas sim um tratamento. O que é consenso é que quanto mais estimulação externa a criança receber, menor impacto a doença terá sobre a vida dela. Isso se aplica para qualquer sujeito, aliás. Oferecer diversos tipos de recursos, sem dúvida pode levar a uma melhora do quadro. Em relação a estes tratamentos específicos, é por esse caminho mesmo. Musicoterapia tem um efeito incrível no cérebro e a terapia ocupacional ajuda a minimizar as dificuldades funcionais do dia a dia. Abraços!

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s