Tomada de decisão: e agora, René? (1ª parte)

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Permitam-me que eu conte uma pequena história com um final (in)feliz. Imaginem a seguinte cena: uma mulher tem um filho que até onde se sabe é o santo na terra. Certo dia ela resolve adotar uma outra criança com a mesma idade do filho legítimo na tentativa de preencher o vazio deixado pelo filho caçula que acidentalmente morreu afogado na banheira. O menino adotivo é adorável, seu comportamento é exemplar, tira boas notas na escola, é prestativo, e além disto, é muito amável com as pessoas de seu convívio. Vendo toda essa cena cheia de purpurina, arco-íris e coraçõezinhos, o filho legítimo fica enciumado e se comporta de forma vândala, encontrando um jeito de culpabilizar o irmão postiço com intenção de incriminá-lo e não perder seu posto de filho único e favorito. Passado algum tempo a mãe começa a acreditar que a adoção possa ter sido um erro. No entanto, certo dia ela flagra a cena incriminante que coloca em questão todas as outras acusações do primogênito contra o irmão postiço. A mãe tenta conviver com isso com o mais profundo sentimento de benevolência pelo primogênito, perdoando-o. Bem, o tempo passa e a vida segue até que um dia, quando convencido de que brincar no penhasco não oferece nenhum risco à vida, o menino adotivo é empurrado pelo irmão, mas segura-se no colarinho do criminoso e os dois ficam pendurados num galho. Sim, aquela típica cena de quase morte e a sensação angustiante de bad ending. A mãe corre para socorrê-los, segurando em cada mão os filhos que se acusam diante dela. Percebendo que não possui força suficiente para puxar os dois em segurança, eis que surge a grande crise histórica-existencial-espiritual-transcendental-fenomenológica: quem ela deve salvar?

Ah meus caros, eu é que não queria estar na pele dessa mãe. É claro que se quisermos poderemos ficar aqui horas dialogando e encontrando motivos para que ela salve um e não o outro. Podemos dar explicações religiosas, morais, sociais, transcendentais, enfim. Tentar justificar um ato  em detrimento de outro é o que não faltaria. Porém, gostaria de entrar em outro campo de discussão: o neurocientífico, é claro =)

Como podem notar, o título deste texto é uma provocação ao pensamento de René Descartes, o filósofo que disse: “Penso, logo existo”. Junto com esta máxima, toda a sua filosofia está baseada na ideia de que a vida, o universo, o CÉREBRO e tudo mais pode ser dividido, separado. No caso do cérebro, o que ele afirmou foi que o corpo e a mente são coisas distintas, feitas de materiais ou produtos diferentes. Bom, mas e o que o pensamento cartesiano tem a ver com esse pequeno conto de linhas atrás? – é o que suponho vocês estejam se perguntando.

Bom, em primeiro lugar a ideia não é oferecer todas as respostas num único texto, até porque seria difícil com um tema tão denso. Mas, queria adiantar a questão central e fundamental que hoje já é amplamente discutida e consagrada no meio acadêmico-científico sobre a tomada de decisão.

Pensava-se até pouco tempo atrás que razão e emoção eram habilidades, produtos humanos (ou seja lá qual nome queiramos dar), diferentes, incompatíveis, cada qual no seu compartimento dentro do cérebro sendo utilizado da forma mais conveniente ao ser humano. Produtos que poderiam ser usados em benefício de uma decisão, por exemplo. Quantas vezes ouvimos aquelas frases do senso comum, como: “Você é muito racional, não pensa sobre a vida com emoção”, ou “Homem! Deixe de pensar com a emoção e racionalize mais!” ou ainda “Faça o que seu coração mandar”. Essas são típicas frases de conselhos que às vezes ouvimos de familiares, amigos e até de nós mesmos em direção a convicta ideia de que nos ajudará a resolver um problema ou tomar uma decisão importante. Como na cena da mãe que precisa DECIDIR o que fazer, digo sem dúvida alguma de que ela não usará nem só emoção, nem só razão, mas sim, AMBAS. Basicamente, o que a neurociência desvendou é que a maioria das nossas decisões são regadas de conteúdo racional e emocional, muito diferente do que propunha Descartes.

Um grande neurologista que escreve sobre o assunto e que ajudou a entender melhor esses processos, foi o português Antonio Damásio. Para ele, a razão é mediada pela emoção. Trocando por miúdos: antes de tomar uma decisão, o sujeito avalia emocionalmente as consequências de suas ações, sendo assim, suas decisões são reguladas pela emoção. E como foi que descobriram isso? Acreditem se quiser, mas até o John Nash, o matemático que ganhou o Nobel por ter criado a Teoria dos Jogos está envolvido nessa história. Contarei em mais detalhes o desenrolar disso tudo, trazendo exemplos de regiões no cérebro envolvidas na tomada de decisão.

O importante agora é tentar imaginar a quem a mãe terá salvo. Bem, ela que aja rápido, porque antes de tomar consciência da decisão o cérebro já fez isso há 7 segundos atrás. E bem, independente da escolha agora sabemos que ela esteve regada de muita razão e emoção. Ela que o diga!

5 pensamentos sobre “Tomada de decisão: e agora, René? (1ª parte)

  1. Cadê a 2º parte?? Tô meio perdida…..rsrsrsr
    Vc ainda vai escrever? Se sim, escreve logo senão não vou dormiiiirrrr kkkkk

      • Sou perdida por natureza kkkkk, distraída comigo mesma! kkkk
        Já entendi tudo, tks =D

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