Tomada de decisão: como ela ocorre no cérebro? (2ª parte)

Depois de deixar alguns leitores curiosos por um tempo, termino o texto sobre a inseparabilidade entre razão e emoção quando da tomada de decisão. Antes, vamos recapitular as ideias do texto anterior: o pensamento cartesiano está pautado na noção de que corpo e mente, cérebro e mente, corpo e alma, enfim, são produtos diferentes, ou seja, são incompatíveis, além de atuarem separadamente. A isso deu-se o nome de dualismo.

A ideia principal pós-cartesianismo argumenta justamente o contrário: de que não existe uma dualidade entre mente-corpo, mente-cérebro ou ainda corpo-alma. A esta postura filosófica damos o nome de monismo ou materialismo, cuja ideia central é a de que existe uma unidade da realidade, isto é, mente e cérebro seriam a mesma coisa, um só produto.

Agora, voltando ao campo das Neurociências, mais especificamente da Neuropsicologia, após anos do estudo científico de como o cérebro processa as informações e toma decisões, descobriu-se que razão e emoção atuam como parceiras e não como inimigas ou antagônicas. Uma contribuição importante nesse campo do conhecimento esteve baseada na hipótese dos marcadores somáticos do cientista Antonio Damásio. Suas descobertas contribuíram muito para que a proposta de Descartes caísse por terra, finalmente.

Então agora pensemos em termos práticos: 

  • Como nós humanos, tomamos decisões na nossa vida cotidiana?
  • O que consideramos importantes para decidir algo?
  • Por que tomamos uma decisão em detrimento de outras?
  • O que determinam nossas decisões?

Essas perguntas podem ser respondidas à luz da Teoria da Perspectiva, que na minha opinião é a que melhor sustenta o que fazemos em nossa prática clínica. Então vamos lá! De maneira sintética a resposta aqui é:

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Esta abordagem surgiu de uma publicação do famoso Daniel Kahneman e de Amos Tversky, este último contribuindo muito no campo da Economia (e hoje já se fala muito em neuroeconomia). Muitos profissionais da área jurídica também acabam fazendo uso deste tipo de abordagem como uma ferramenta para auxiliá-los na vida profissional.

Mas, no que diz respeito à Neuropsicologia, a tomada de decisão é uma função desempenhada pelo córtex pré-frontal, a porção mais anterior do cérebro. Existem três circuitos principais no córtex pré-frontal, e aquela responsável pela tomada de decisão além de uma série de funções como planejamento, monitoramento, solução de problemas, memória operacional, estabelecimento de metas, julgamento e foco atencional é o circuito dorsolateral.

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Se lembrarem do que já escrevi aqui, essas funções fazem parte de um conjunto maior de funções chamado Funções Executivas. Então vamos relacionar todos esses conhecimentos:

A tomada de decisão é uma função desempenhada pela porção frontal do cérebro e envolve outras habilidades relacionadas com as funções executivas. Quando pessoas sofrem algum tipo de insulto externo como golpes, pancadas ou quedas a tomada de decisão que é extremamente importante no nosso dia a dia pode sofrer sérias alterações.

Na prática clínica, vemos que sujeitos com lesão frontal apresentam muitas dificuldades em organização e solução de problemas. Não possuem mais a habilidade de organizar as tarefas do dia, a sequência (início, meio e fim) para a otimização destas tarefas, tampouco a execução das mesmas. Além disto, observamos que lesões frontais e pré-frontais levam esses pacientes à persistirem em escolhas ou decisões desvantajosas, como por exemplo, apostar dinheiro em jogos de azar, investir em negócios em que a chance de gerar frutos é muito pequena, realizar trocas materiais que aparentemente podem ser vantajosas num primeiro momento, mas que a longo prazo perdem o valor.

Se pensarmos nas funções relacionadas com a tomada de decisão (planejamento, organização, solução de problemas etc.) podemos ainda levantar a seguinte questão: se essas funções parecem ter um caráter mais racional, ou seja, ligadas à razão e a consciência, por que pessoas que sofrem lesões não conseguem mais tomar decisões como antes?

Porque elas perderam a sensibilidade para antecipar as consequências de seus atos. Por isto que razão e emoção são indissociáveis.

6 pensamentos sobre “Tomada de decisão: como ela ocorre no cérebro? (2ª parte)

  1. Pensando aqui com meus botões…para evitar perdas (dores) será que deixo de ter ganhos??? =O Owww Goood

    “Penso, logo surto…” rsrsr

  2. Parabéns Lulu!
    Cada dia fico mais orgulhosa de você, da sua inteligência, capacidade e comprometimento!
    Obrigada pelas inúmeras contribuições. Li o seu último texto, mas tive que ler os outros porque fiquei deslumbrada e curiosa. Parabéns mais uma vez!
    Beijos,
    Luana

    • Nossa, Lu! Eu que fico muito feliz por ter tanta gente me apoiando. Isso tudo é fruto das relações que construí até hoje também. Obrigada por tudo! Estarei sempre escrevendo, divulgando conhecimento e contribuindo de alguma forma. Bjão!

  3. Luciane, adorei seu texto. Sou apaixonada por Neurociência e hoje tenho a oportunidade de fazer muitos cursos relacionados ao tema , junto de uma Neurocientista aqui no local onde trabalho.

    Parabééns!

    Abraços.

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