“Então me disseram que eu não era eu”

A frase entre parênteses tenta traduzir o que sente um sujeito com lesão cerebral. E assim começam as angústias: surge aquele aperto no peito, aquela tristeza de sentir que não se pertence a este mundo, de que as regras já não são as mesmas. Aquele estranhamento de que algo mudou e não se sabe, nem se entende porquê, e de que finalmente, já não se é mais o mesmo de antes.

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Esta é apenas uma tentativa de mostrar o que acontece com pessoas que tinham uma vida normal, mas que em virtude de um acometimento cerebral interrompem seu percurso. E neste percurso estão incluídos o trabalho, o casamento, os amigos, os familiares, as atividades de lazer, enfim, tudo o que o sujeito fazia e que não pode mais ser exercido como antes por uma limitação de ordem neurológica. Talvez esta descrição seja um pouco falha ou mesmo pobre, pois só quem vive o problema sabe realmente o sofrimento que isso gera. No entanto, embora não consigamos “sentir na pele” os efeitos que uma lesão pode causar na personalidade de quem é acometido, não podemos negligenciar a existência desta dificuldade e de como ela afeta a recuperação e reabilitação.

Como já falei algumas vezes em outros textos, alterações cognitivas, comportamentais, físicas e de personalidade são comuns em quadros graves de lesão encefálica. Dentre estas dificuldades que o sujeito enfrenta, uma atenção especial deve ser dada ao aspecto da identidade deste sujeito. É papel do neuropsicólogo ajudá-lo a entender que existe uma identidade pré e pós lesão.

Um neuropsicólogo muito famoso nessa área é Mark Ylvisaker que procurou estabelecer métodos e estratégias de reabilitação que pudessem ajudar no ajustamento comportamental do indivíduo com lesão cerebral, e de como este ajustamento pode favorecer a reintegração na comunidade. Este tipo de abordagem entende que as dificuldades que o sujeito enfrenta acabam entrando em choque com seu novo senso de identidade pessoal.

Vamos pensar num exemplo prático que já descrevi aqui no meu blog: o caso Phineas Gage. Antes da lesão cerebral ele era visto como um sujeito responsável, tinha um papel de líder importante no trabalho, era respeitado pelos subordinados, tinha uma vida regrada. Depois que a barra de ferro atravessou seu cérebro, seus comportamentos e personalidade sofreram alterações muito marcantes: ele se tornou um sujeito vacilante, desrespeitoso, sem escrúpulos e desinibido. Com essas alterações, a identidade de Phineas Gage também é afetada. Já não volta as atividades que exercia antes e perde relações importantes por conta da sua inadequação.

De forma geral, é importante destacar aqui que nem sempre o sujeito entende que suas dificuldades o limitam para o retorno a sua vida anterior ao dano cerebral. Essas dificuldades só começarão a fazer sentido quando ele lidar diretamente com elas, percebendo que tarefas simples, como ir ao mercado comprar dois itens, ou que tomar os remédios na hora certa e que não esquecer o horário do médico já se tornaram difíceis para ele. Por isso, é importante que orientações (que fazem parte do processo de reabilitação neuropsicológica) possam ser feitas em direção a este ajustamento de um novo self, conferindo um novo sentido a si próprio, “um senso de identidade organizado e positivo”, como diria nosso herói Ylvisaker.

Espero que não precisemos falar muito frequentemente por aí de que “você não é mais você”. Mas, como isso vai ser inevitável, torço para que possamos entender como este processo acontece e como poderemos desenvolver um trabalho em direção a maior qualidade de vida a estas pessoas.

2 pensamentos sobre ““Então me disseram que eu não era eu”

  1. Lu, parabéns por esta conquista! Desejo que você consiga realizar bons estudos e continuar informando muitas pessoas. Você tem uma grande missão! Força e Sabedoria!

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