Nossas janelas de oportunidade – parte I

Você já parou para pensar por que e como algumas pessoas desenvolvem múltiplas habilidades e são realmente boas no que fazem? Sabe aquele sujeito que fala várias línguas, sabe tocar instrumentos musicais difíceis como violino, piano, bateria, gaita e por aí vai? E aqueles desenhistas, pintores e artesãos que parecem que “nasceram com o dom”?

Sem tirar o crédito do esforço e estudo de vários artistas (sim, a arte é uma habilidade que pode ser desenvolvida ao longo da nossa existência, de acordo com nossas experiências – esse é o tema do post), é claro que existem aqueles sujeitos com habilidades inatas. Por exemplo, pessoas com a Síndrome de Asperger podem apresentar habilidades artísticas sensacionais como a pintura exata de pessoas reais. Em contrapartida, demonstram prejuízos severos em interação social. Suspeita-se de que grandes gênios da história da humanidade tinham essa síndrome, basta pesquisar.

A explicação da neurociência é que essas pessoas consideradas “multiaptas” ou com habilidades bem desenvolvidas possuem um cérebro diferente. Parece um contrassenso pensar assim, já que somos da mesma espécie (homo sapiens), e que macroscopicamente nossos cérebros têm praticamente o mesmo peso, as mesmas estruturas e estão alocadas de modo particularmente semelhante. Portanto, dispomos do mesmo arcabouço neuronal se pensarmos que estes cérebros tiveram um desenvolvimento considerado adequado. Mas, se pegarmos 10 cérebros, todos eles terão suas características próprias, com fissuras e giros levemente diferentes, e com conexões neuronais diferentes! Por quê?

Vamos pensar no seguinte: todos nós somos modulados por experiências diferentes, damos um significado diferenciado, um colorido particular para cada aprendizado. Isso significa que a influência que nosso cérebro recebe do ambiente externo também é diferenciado, e logo, essas conexões terão suas idiossincrasias, suas particularidades, levando a alterações na estrutura cerebral. Isso nos leva a pergunta inicial e ao tema deste texto. Por que algumas pessoas são capazes de atividades que para nós parece impossível? E mais, por que na fase adulta, aprender uma nova língua, um novo instrumento musical, ou pintura em pratos de porcelana é algo tão dispendioso e difícil?

O que se sabe há um bom tempo é que existem períodos de desenvolvimento cerebral cuja experiência é importante para em primeiro lugar, levar a um desenvolvimento adequado. Segundo, que se o cérebro for exposto em momentos OPORTUNOS do seu desenvolvimento, então habilidades podem ser incrivelmente e facilmente desenvolvidas. A lógica inversa é igualmente cabível: se nosso cérebro é privado de um aprendizado nestes períodos críticos, então essa habilidade não é adquirida ou é tardiamente desenvolvida com um esforço muito maior.

É a isso que damos o nome de janelas de oportunidade, cujo nome é usado para fazer a seguinte analogia criada por Richard Tees: imagine que estamos viajando num trem e que no início da viagem todas as janelas estão fechadas, como quando ainda somos um feto. Quando nascemos e nos desenvolvemos, algumas janelas vão se abrindo com o objetivo de expor nosso cérebro a incríveis experiências, como o som, as cores, os odores, podendo gerar uma série de sinapses. Todavia, se o cérebro se ausenta desta exposição enquanto estas janelas vão sendo abertas, o desenvolvimento pode ser muito prejudicado. Conforme vamos crescendo estas janelas vão se fechando de modo permanente e impedindo que nosso organismo assuma certas funções. Da mesma forma, se o cérebro APROVEITA a oportunidade para aprender no momento certo, então ele dará o seu melhor, o seu potencial máximo, garantindo uma aprendizagem mais fácil e prazerosa.

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Na prática, isto equivale a dizer que as crianças expostas a experiências de aprendizagem de uma segunda língua, de uma dança, ou de um instrumento musical possuem uma facilidade maior comparada aos adultos. Elas estão alterando estruturalmente seus cérebros a partir da experiência oportuna da fase de desenvolvimento em que se encontram. Por isso, não é lenda: crianças têm uma facilidade maior para aprender novas habilidades porque seus cérebros estão repletos de neurônios se conectando, estão nos seus picos máximos de sinapses se formando.

Agora, o conhecimento disto nos leva a pensar na seguinte medida: cabe principalmente aos pais e aos professores oferecer amplas OPORTUNIDADES aos cérebros infantis para que eles se desenvolvam no seu melhor potencial. É claro que não vamos enxurrá-los com estimulação excessiva, mas sim, podemos oportunizar experiências que para os pequenos sejam prazerosas e divertidas, assumindo um cérebro cheinho de conexões!

4 pensamentos sobre “Nossas janelas de oportunidade – parte I

  1. Brilhante explanação… porem peço vênias para escrever que sou partidário da opinião que podemos estimular nosso cérebro para aprender o que temos interesse não importando a idade; o x da questão seria em saber o que exatamente fazer (pois conforme explicou, temos sim cérebros que diferenciam e muito de uns para outros conforme somos expostos a diferentes experiências) para estimular e não esta estimulação ser feita apenas durante o período (muito fértil sim) de desenvolvimento quando criança.
    Adoro este assunto pois acredito que desvendar o cérebro nos fará evoluir muito em inúmeros sentidos e cada pessoa interessada em escrever a respeito irá nos deixar cada vez mais perto deste objetivo!

    • Oi André! Que bom que você tem esse interesse em conhecer mais sobre o assunto. Logo seguirá a segunda parte do texto. Isso que você falou sobre aprender em qualquer idade: sim, enquanto nós estivermos vivos sempre haverá aprendizado. O texto só faz uma ressalva sobre momentos cruciais da nossa existência que devemos ser expostos e sem as quais não teríamos evoluído o que somos hoje. Continue acompanhando os textos. Muito grata! Luciane

  2. Oi, Lulu!! Texto muito bom. Vontade de ler mais e mais. Li esses dias um artigo na Internet que tratava desse tema. O autor, na verdade, afirmava que hoje em dia há certa tendência/modismo dos pais quererem estimular as crianças em todo o momento, em todo ambiente e afirmava que isso até poderia ser ruim para a criança. Parece haver certa exigência para que as crianças aprendam tudo, muito cedo, e cada vez mais precoce de forma a estimular uma competição entre as aptidões das crianças. Queria tua opinião. Como encontrar o equilíbrio entre a falta e o excesso de estímulo?

  3. Oi Rafa, muito boa sua pergunta, como sempre! Olha, pelo que tenho visto os pais muitas vezes querendo fazer o melhor, acabam errando a mão colocando os filhos nas mais diversas atividades, e como esse autor que você leu muito bem falou, às vezes pode sim ser prejudicial. Não existe um número ou uma fórmula que defina “essa quantidade de atividades é boa para meu filho”, mas sim, é importante observar algumas coisas: 1) essas atividades são de fato prazerosas pra criança? ou seja, ela gosta do balé, da aula de violino, do teatro, etc?; 2) essas atividades estão beneficiando o desenvolvimento da criança? Quer dizer, é possível observar avanços na sua forma de se expressar, no seu pensamento, nas suas habilidades de socialização ou pelo contrário, tem prejudicado alguma esfera da vida?; 3) Tais atividades estão entrando em conflito entre si, ou entre atividades que já fazem parte da rotina, por exemplo, tem prejudicado o desempenho escolar, ou desestimulado outras atividades paralelas? Enfim, podemos observar diversos fatores, mas em primeiro lugar, respeitar o limite da criança/adolescente. Ele não pode ficar mais cansado e desestimulado, do que energizado e com vontade de aprender mais, digamos. Espero ter ajudado, hehe! Beijão e obrigada por acompanhar o blog!

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