O cuidado com nossas janelas de oportunidade – parte II

Para quem curtiu a primeira parte do texto sobre este assunto, seguem agora outras informações valiosas sobre a importância que a interação organismo-ambiente tem sobre o desenvolvimento. Todo mundo sabe disso, não é mesmo? O “x” da questão é QUANDO propiciar essa interação e DE QUE FORMA.

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Vamos apenas recapitular rapidamente: no último texto falei que somos modulados pelas nossas experiências e que elas influenciam nosso cérebro, certo? Sabemos também que algumas experiências podem influenciar o desenvolvimento de habilidades OU para desfavorecer o curso natural do desenvolvimento. Isso mesmo!

Vejamos o seguinte: se existem janelas de oportunidade (momento oportuno para adquirir habilidades incríveis), quando essas mesmas janelas estiverem abertas e não as aproveitarmos, além de não favorecer nossos cérebros podemos “machucá-los”. Vou explicar.

Quando nascemos apresentamos uma capacidade máxima de sinapses.  Um processo natural é o descarte de algumas dessas sinapses (desbastamento), uma vez que nestes primeiros anos de vida está ocorrendo uma organização do cérebro e as células estão se diferenciando umas das outras, assumindo conexões e consequentemente algumas funções. Agora vamos imaginar que no meio deste processo extremamente importante, algo externo interrompe essas formações, conexões, funções cerebrais. É aí que mora o perigo! Alguns exemplos bem simples e clássicos: gestantes que ingerem álcool ou drogas podem levar a má formações congênitas; partos complicados podem levar a anóxia (falta de oxigenação no cérebro durante o nascimento); bebês pequenos podem sofrer lesões cerebrais desde os primeiros meses de nascimento se sofrerem alguma queda… há inúmeros exemplos.

É preciso compreender que existem sérias repercussões sobre a formação de diversas competências, tanto cognitivas (na linguagem, no pensamento, na inteligência, por exemplo), como também nas habilidades sociais ao longo do desenvolvimento.

Na ciência, um exemplo clássico que explica bem esse fenômeno dos períodos críticos do desenvolvimento é o que chamamos de imprinting, que do inglês quer dizer impressão. O imprinting ocorre quando o animal (aves, mais especificamente) aprende a associar o primeiro objeto em movimento após seu nascimento como pertencente a sua espécie. Isso ocorre por meio de uma programação específica de vinculação. Assim, consideramos esse comportamento adaptativo do ponto de vista evolutivo, pois garante que o filhote recém saído da casca do ovo fique perto da sua mãe.

No entanto, Konrad Lorenz descobriu na primeira metade do século XX que a impressão adequada nem sempre é possível. Ele demonstrou que se o primeiro objeto em movimento que aves bebês vissem fosse um ser humano, elas o seguiriam como se fosse sua mãe. A foto abaixo mostra ele sendo seguido por um bando de filhotinhos de ganso. A grande descoberta é que a longo prazo a impressão incorreta pode levar a sérias consequências no desenvolvimento. No caso das aves, estas podem direcionar seu comportamento sexual para seres humanos.

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Você deve estar se perguntando: “mas instintivamente os animais não deveriam saber quem é sua verdadeira mãe?”. Sim, mas não instintivamente porque o imprinting sugere que provavelmente as estruturas cerebrais se alteram rapidamente quando um novo comportamento se instala. Isto significa que se nosso cérebro é capaz de se modificar devido a interação entre componentes genéticos e ambientais, podemos supor que o cérebro passa por um processo chamado plasticidade cerebral, considerado hoje um dos fenômenos mais importantes do cérebro.

A descoberta desses fenômenos (há outros exemplos também, como em macacos) nos ajuda a entender de que forma eventos externos podem alterar o desenvolvimento do cérebro, gerando possivelmente transtornos comportamentais crônicos, seja na infância, adolescência ou vida adulta. Não podemos subestimar quanto um ambiente conturbado, violento, negligente ou sem estimulação nenhuma custe para o cérebro em desenvolvimento. E refiro-me principalmente as crianças. É preciso cuidar bem delas, ter responsabilidade em sermos pais ou mães.

Espero que estes dois textos tenham servido não só para informar, mas também para alertar sobre o como nosso cérebro é frágil, mas seguramente dotado de uma capacidade incrível de se adaptar às mudanças internas e externas. Sugestões, comentários, críticas serão bem vindas!

4 pensamentos sobre “O cuidado com nossas janelas de oportunidade – parte II

  1. Querida, na verdade sua disposição e vontade em partilhar um pouco de si com o resto do mundo é muito interessante. Agora quanto ao tema em questão, isto é a VINCULAÇÃO, teve seus ensaios e estudos, mas até hoje a controversa de estes gansos virem a ter problemas de orientação sexual ainda é uma incógnita. Pois como ficou demonstrado, no que diz respeito, se o mais importante era o conforto ou a alimentação naquele estudo com macacos resos, onde um continha o frasco com leite mas era feito de arame e outro simplesmente feito de veludo (forrado como um ursinho de peluche), ao produzir um sinal assustador, os filhotes de macaco preferiam ou corriam para o forro de peluche. Lembra?
    De resto continua assim que nós vamos seguindo.
    Um abraço

    • Olá Helder, obrigada pela sua contribuição. Sim, os experimentos com macaco rhesus são bem interessantes. Aliás, em um desses experimentos, quando os bebês macacos nasciam eram retirados de suas mães e mantidos em jaulas sob cuidados humanos. Assim que se tornavam adultos, demostravam comportamentos que lembram a depressão: isolamento e apatia. Vamos continuar compartilhando conhecimento. Volte sempre!

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