Fala, Orlando Bueno!

Caros leitores, colegas e amigos! É com muita alegria que divulgo a primeira entrevista oficial para meu blog. A ideia é poder trazer um pouquinho da visão de figuras importantes na área de Neurociência, Neuropsicologia e Reabilitação (por sinal, tema do blog) sobre como está o cenário do segmento em que atua, seja na pesquisa científica ou na prática clínica. Farei entrevistas com o pessoal fera na área, pessoas que contribuíram com essa Ciência do Cérebro tão linda e empolgante.  Para começar com a série de entrevistas, ninguém menos do que nosso querido Orlando Bueno, mais conhecido como Ofa, meu professor orientador, mestre dos magos! Foi um bate-papo muito interessante, me enriqueceu muito como estudante e pesquisadora e espero que contribua para o conhecimento de vocês também. Valeu cada palavra, cada linha, cada ideia! Para quem quiser saber mais sobre ele, é só clicar aqui. Ele é a nossa celebridade da interface Ciência e Neuropsicologia.

ofa

Espero que curtam e compartilhem aí com seus parceiros. Vejo vocês nos comentários, até lá!

 

[Eu] Professor, é uma honra poder entrevistá-lo, entender um pouquinho melhor sua visão sobre a Neuropsicologia, essa área que tem crescido tanto nos últimos anos. Gostaria de começar perguntando como o Sr. vê a neuropsicologia hoje enquanto um campo de conhecimento e enquanto prática do neuropsicólogo e outros profissionais da saúde?

Professor: A neuropsicologia teve um desenvolvimento muito grande a partir da segunda metade do século XX (1950 em diante), com trabalhos sobre memória, linguagem, afasia, agnosia. Em memória, o destaque foi o caso H.M., que propiciou um grande desenvolvimento das pesquisas sobre o tema. Juntamente com isso, nessa época foi despertado pelo caso H.M. um interesse muito grande pela neuroanatomia. Então foi uma época de revolução na neuroanatomia experimental com o desenvolvimento de técnicas de coloração, e nesta época também se descobriu muito sobre hipocampo. A principal estrutura afetada no caso do H.M. e que além dessa, outras estruturas relacionadas estariam envolvidas muito criticamente com memória. Então, de lá para cá tem havido um desenvolvimento muito grande com pacientes, estudo em animais (memória), além de muitas técnicas. E também, a partir dessa época por volta dos anos 50 e 60 houve um grande desenvolvimento da Psicologia Cognitiva. Tudo isso se somou também dentro da medicina e neurologia. Foi daí para frente que houve uma explosão de trabalhos e a neuropsicologia moderna surgiu por volta dessa época. Hoje, continuam todos esses trabalhos com enfoques muito variados, inclusive com o desenvolvimento de técnicas de reabilitação cognitiva com pacientes com diversos tipos de lesão e pacientes com doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer.

 

[Eu] Daria para dizer que naquela época havia um desenvolvimento mais em pesquisa básica e, claro também clínica, mas que hoje todo esse histórico levou ao desenvolvimento de uma neuropsicologia mais voltada para a reabilitação?

Professor: Não. Há um outro fator que também surgiu mais ou menos a partir da segunda metade do século XX para os estudos de neurociências em geral: fisiologia do sistema nervoso, eletrofisiologia, psicofarmacologia que nasceu na década de 50 e que já se pensava no tratamento de pacientes psiquiátricos. Mais recentemente, temos as técnicas de imageamento, tecnologia avançada de neurofisiologia e eletrofisiologia que impulsionou muito essa área de neuropsicologia. Então, a gente consegue estudar muito o cérebro e relacionar com o comportamento, com a atividade mental, com as doenças que afetam o sistema nervoso com o uso dessas novas ferramentas. Inclusive, agora temos acesso a atividade cerebral em voluntários saudáveis, sem lesão, sem doença. Tanto na neuroimagem, como eletrofisiologicamente. Houve esses dois momentos que estão levando ao desenvolvimento muito grande em neurociência e neuropsicolgia, em especial.

 

[Eu] Qual seria a importância que a neuropsicologia tem para as pessoas que trabalham com saúde, mais especificamente os psicólogos?

Professor: A neuropsicologia sempre abriu um caminho novo para os psicólogos que trabalham nessa área. Lembrando de novo o paciente H.M. que foi submetido a neurocirurgia, houve não só o tratamento clínico com serviço psicológico, mas o desenvolvimento de técnicas para estudar o que aconteceu com a memória desse paciente depois dessa cirurgia. E a pioneira desse estudo foi Brenda Milner que é psicóloga. Não só nessa área que surgiu uma nova possibilidade para atendimento profissional para psicólogos, mas também fonoaudiólogos, terapeuta ocupacional e todas essas áreas relacionadas. É um novo campo de atuação dos profissionais nessas áreas.

 

[Eu] E o que o Sr. acha sobre essa exclusividade que se deu ao psicólogo para o uso de testes psicológicos e neuropsicológicos. Qual a opinião do Sr.? Poderia ser ampliado para outros profissionais? Ou seja, o pensamento neuropsicológico pode ser desenvolvido em qualquer pessoa, não é?

Professor: Bom, o pensamento neuropsicológico não é só para o psicólogo. Precisa lembrar que quem atuou primeiro em neuropsicologia não foi o psicólogo. Aqui no Brasil havia médicos, neurologistas, fonoaudiólogos e no exterior também. E essas diversas áreas também realizam pesquisas, desenvolvem testes e muitos destes testes não são desenvolvidos por psicólogos. São testes, por exemplo, de terapia ocupacional, ou testes de fonoaudiólogos. Então, eu não concordo com essa limitação de uso desses instrumentos só para psicólogos. Inclusive, também na clínica médica, neurologista, psiquiatra, utilizam e desenvolvem também instrumentos que não diferem muito daqueles que o psicólogo aplica. Isso é um entrave para o desenvolvimento não só para a área da pesquisa, mas é um prejuízo para o paciente. Ele deveria ter um atendimento multiprofissional, o que não é possível fazer na maioria das vezes num consultório. E também não é possível você ficar consultando diversos profissionais, mandar ele fazer um teste disso e daquilo com várias pessoas. Então, deveria haver uma maior abertura para que esses profissionais tivessem experiências conjuntas, cada um contribuindo mais especificamente com seu conhecimento, mas sem esse impedimento, algo como “bom, agora eu vou cruzar a linha do campo, então vou ficar de fora porque eu aplico um teste que é neuropsicológico”. É lógico que isso deveria ser aberto para outros profissionais, sendo que é obrigação de todos eles ter um conhecimento geral de neuropsicologia e reservar-se a essas áreas específicas para aquilo que é realmente do conhecimento e interesse só de cada uma dessas áreas. Inclusive para desenvolver instrumentos adequados.

 

[Eu] Vamos dar uma ênfase um pouco mais conceitual agora. O neuropsicólogo precisa ser um neurocientista, ou o neurocientista precisa ser um neuropsicólogo? Porque sabemos que existe uma aproximação muito grande entre as duas áreas do conhecimento, embora a neurociência estude o sistema nervoso de forma geral, mas se aproxima muito do conhecimento da neuropsicologia. Qual é a postura que um ou outro precisa ter diante destas duas áreas do conhecimento?

Professor: Existe uma área que é a aplicação clínica da neuropsicologia. Não obrigatoriamente o neuropsicólogo precisa desenvolver pesquisa na área. Mas o neuropsicólogo deve ter algum conhecimento mais geral da neuropsicologia além das suas técnicas de intervenção. É preciso um mínimo de conhecimento para saber como o cérebro funciona. Por outro lado, um neurocientista normalmente não está interessado, ou não se dedica ao tratamento individual de pacientes ou de grupos, enfim. Ele quer desenvolver conhecimento nessa área. Ele trabalha desde os animais (um exemplo clássico foi o Kandel que estudou a Aplysia),  e outros estudos em várias espécies animais etc., e muito pesquisador neurocientista estuda também o ser humano. Não estão voltados para a clínica necessariamente. Agora quem está desenvolvendo estudo mais voltado para a clínica neuropsicológica tem que saber alguma coisa de neurociência ou trabalhar com grupos que fazem neuropsicologia clínica e que são grupos especializados em várias patologias diferentes. Mas, o ideal é sempre um trabalho em colaboração com essas diferentes áreas. E não precisa ser só o neuropsicólogo, psicólogo, fonoaudiólogo, existem outras matérias de interesse. Temos que ter algum conhecimento em estatística, ou saber como as drogas atuam no sistema nervoso. Temos que ter alguma noção de neuroanatomia, saber que o cérebro é constituído por células como qualquer parte do corpo. Claro que o neurocientista precisa conhecer isso tudo mais a fundo, mas todo mundo deve ter conhecimento básico disso.

 

[Eu] E o que o Sr. acha sobre esses modismos de “neuro”, por exemplo, neureconomia, neuroética, neuromarketing. Porque são outras áreas tomando o conhecimento das neurociências para explicar um fenômeno, certo?

Professor: O fato de alguma outra especialidade recolher conhecimento da neuropsicologia para desenvolver algum aspecto da sua atividade, isso é normal acontecer em ciência. A gente também utiliza pensamentos fora da neuropsicologia, da psicologia. Na filosofia também temos que conhecer de ciências humanas. Cada um pode realmente utilizar o conhecimento dos outros. Se hoje em dia muita gente faz eu não posso criticar isso. Eu não sei qual é a prática dessas diversas atividades, mas enquanto uma prática acadêmica isso é o normal. Quanto mais conseguir interessar pessoas em áreas diferentes, se você conseguir a colaboração de outras pessoas, por exemplo, engenharia, física, e eles tiverem que fazer algum estudo, precisamos desses profissionais, não vejo nada de errado. Não é contraproducente. É o desenvolvimento da ciência, se vai dar um resultado positivo ou não, eu não sei. Acredito que sim.

 

[Eu] E para o Sr. qual é o futuro da neuropsicologia, tanto em termos de pesquisa, quanto no tratamento de pessoas que precisam desse conhecimento?

Professor: Bom, a neuropsicologia tem características convencionalmente da neurociência, é uma área que lida com o cérebro, a mente, o comportamento. Mas ela se beneficia de todos esses estudos e de todas as outras diferentes áreas. Eu acho que ela vai cada vez mais depender ou absorver esses conhecimentos. O futuro da neuropsicologia está na tecnologia cada vez mais avançada para entender como funciona o cérebro. E o neuropsicólogo precisa entender essa tarefa, como funciona o cérebro. E do ponto de vista da aplicação também. Está havendo um desenvolvimento de novas técnicas muito grande para estudar o cérebro e o comportamento. Por exemplo, o neurofeedback. Enfim, todas essas áreas, a genética, epigenética, tudo isso, a gente vai ter que trabalhar em conjunto. O neuropsicólogo não vai poder ser um geneticista, mas ele vai ter que trabalhar com geneticistas e vai ter que trabalhar também para estudar, compreender ou intervir também na escola, no ambiente de trabalho, enfim, todas essas atividades o neuropsicólogo precisa se fazer presente. E para isso técnicas estão sendo desenvolvidas, não só as técnicas, mas pensamentos, e maneiras de pensar completamente diferente. Isso vai fazer o futuro da neuropsicologia, não há como escapar. Neuropsicologia é uma atividade, um núcleo de atividade, mas sempre em conjunto com outras áreas ao redor. E cada vez mais, eu acredito que essas áreas vão beneficiar a neuropsicologia, e a neuropsicologia vai beneficiar essas áreas. Eu acho que é esse o futuro. Do ponto de vista do mercado de trabalho para o neuropsicólogo, eu não sei. Meu pensamento não está voltado para isso. Essa é uma questão conjuntural que aqui no Brasil são definidas algumas profissões, outras não, outras serão definidas depois. Então a minha ideia é que sejam criadas as redes de colaboração dentro de diversas profissões.

 

[Eu] O que é preciso fazer ainda para avançarmos ainda mais? Talvez fortalecer essas alianças com outros profissionais e que nosso trabalho seja cada vez mais completo?

Professor: Sem dúvida! Acho que vão surgir esses momentos que vão ser impostos pela realidade. Não é chegar simplesmente e dizer “agora vou tratar fulano independente do resto que está acontecendo no mundo”. É uma questão de mercado que vai se impor, de quem conseguirá realizar um trabalho satisfatório com essas técnicas todas, e que vão se abrir muitas possibilidades de tratamento. Então você não pode ficar no seu cantinho e aqui ninguém tasca. Não é assim. Cada vez mais são criadas redes de colaboração, diversas profissões e profissionais especializados em diferentes áreas. Isso em tratamento, e no desenvolvimento da ciência então, nem se fala! Nem tem cabimento você pensar de maneira diferente.

 

[Eu] E como está o cenário da neuropsicologia no Brasil?

Professor: Começou com médicos, muitos neurologistas, fonoaudiólogos, depois criaram a Sociedade Brasileira de Neuropsicologia.

 

[Eu] Começou lá na União Soviética, Reino Unido, Itália, Alemanha, EUA. Mas comparado com esse pessoal de lá, em que pé o Brasil está. Estamos muito atrasados? Professor: Em termos de desenvolvimento científico, sim. Muito atrasados.

 

[Eu] E de prática clínica? Professor: Prática clínica exige um envolvimento do neuropsicólogo, corpo a corpo. Nesse aspecto não estamos tão atrasados, estamos conseguindo acompanhar. Com exceção de algumas áreas que exigem um pouco mais de tecnologia que já é algo corriqueiro lá fora e que aqui ninguém se preocupa muito em conseguir, por exemplo, uma ressonância. Agora, essa é a vanguarda da neuropsicologia. Existe um outro lado que é a retaguarda, que tudo bem, a neuropsicologia está avançando, conquistando espaço para atender as demandas, mas muitas e muitas das vezes não existe trabalho de neuropsicólogo como deveria existir. A vanguarda, acho que está conseguindo acompanhar. Temos alguns atrasos, algumas deficiências de tecnologia, mas em termos de pensamento e intervenção, tratamento e reabilitação, acho que a vanguarda está caminhando bem. Por outro lado, lá atrás isso precisa ser desenvolvido. Agora, o sinal positivo é que está havendo. Há muita gente procurando se manter atualizado, querendo saber de intervenção neuropsicológica. Procura por cursos de especialização, estágio na área está aumentando,  isso é um sinal positivo.

 

** A entrevista foi totalmente cedida para divulgação neste espaço e acordada anteriormente com o entrevistado.

Orlando Francisco Amodeo Bueno é formado em Psicologia, Livre-Docente do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo / UNIFESP, desenvolve várias pesquisas acerca da cognição humana, sendo a memória seu principal foco de interesse.

 

3 pensamentos sobre “Fala, Orlando Bueno!

  1. nossa Lu parabéns pela iniciativa!!!! é sempre muito bom ler o que o professor Ofa tem a nos dizer, principalmente quando vem com seu ponto de vista. AMEI!!!!!!!! Maria Fernanda

  2. Bom dia. Parabéns pela iniciativa do blog. Me chamo Gabryella e sou psicóloga. Atualmente estou fazendo residência Multiprofissional de Neurologia e Neurocirurgia pela ESP/CE. Gostaria de saber qual sua indicação de países/ instituições de referência em neuropsicologia para se realizar um estágio curricular pelo período de 15 dias.
    Desde já agradeço pela atenção.
    Gabryella Diógenes.

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