Teria sido melhor ver o jogo do Pelé

Você não deve saber como é viver sem memória, né? Perguntou ela.

Não sei mesmo, viu. Pois no mundo de hoje, eu já não sei viver tendo que memorizar tanta coisa. Sobrecarregou tudo por aqui. Respondi. E rimos…!

Esse foi um curto diálogo que tive o prazer de ter com uma paciente mais que especial, e que me inspirou a escrever este texto. Se eu pudesse ter ao menos 10 minutos de experiência sem memória, viveria na pele o impacto que não ter memória teria na minha vida. Lembrar se já paguei o aluguel vencido, se contei a história da peça que assisti para minha mãe, se já lustrei meus sapatos, ou se já tomei banho hoje. Bem, como não posso fazer isso, apenas imagino quão difícil deve ser. Empatia é preciso.

Queria convidá-los então, a fazer uma espécie de imersão num diário fictício, baseado nas minhas experiências com os pacientes amnésicos que tive a oportunidade de conhecer. Aproveitem!


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“Pois acordei cedo porque precisava sair para comprar jornal. Ou era a revista da semana que faltava na minha mesa de café da manhã? Bem, não importa. Eu precisava saber qual tinha sido o resultado do brasileirão. Esse ano o Flamengo jogou bem, tinha esperança de que tinha dado tudo certo. Lembro (sim, isso eu lembro, porque estava pendurado na parede do corredor da minha sala) o quadro do título que eles haviam alcançado. Recentemente? Não sei, mas melhor checar para prevenir. Não tem data. Estão aqui, todos os jogadores alinhados em fila, uns em pé, outros agachados. É, estou de frente ao quadro agora, posso vê-los felizes, sorridentes e vitoriosos do título. O Pelé bem no meio. Como gosto dele!!! Esse ano jogou bem.

Saio de casa por volta das 7h38min da manhã para ir até a banca. Antes disso checo o bilhete que está colado na porta da minha geladeira. Está escrito: ‘médico às 10:00 horas, não posso me demorar’. Até pensei que eu já tivesse ido semana passada, mas não. Estou abrindo minha agenda agora para saber o que houve. Ahhhh! Mas que droga, estava anotado aqui: ‘Dr.Mourão, às 10:00 horas, perguntar sobre tonturas’. Ah, entendi porque a secretária dele me ligou. Eu não fui na consulta, então remarcamos. É isso.  

Passo na feirinha da esquina da minha casa. A banca é dali a uns passos. Encontro D.Joana que me pergunta por que estou com o telefone sem fio na mão. Ai Deus, que vergonha! Ela bem sabe que tenho problemas, mas eu tento disfarçar com um sorriso amarelo e respondo com pressa: ‘vou levar pro conserto’. Acho que ela reparou que fiquei com vergonha. ‘Tudo bem, já acostumei com isso’ – pensei. Conversamos uns minutos e foi-se.

Olho para frente e penso: ‘Que diabos que eu tô fazendo aqui? Aonde é que eu estava indo? Odeio quando isso acontece. Parece que é o tempo inteiro, um tempo que não passa. Olho em volta, não vejo nada. Vou andar mais um pouquinho, quem sabe algo aqui fora me diz o que eu pensei aqui dentro’. Ando uns quarteirões à frente. Acho que vou comprar jornal, talvez não tenha comprado o de hoje ainda. Já de longe avisto as pilhas de jornais do dia: Folha, O Globo, Gazeta, Metrô News, Em tempo… todos lá. Olho a data. Esqueci que dia é hoje, mas aqui diz: quinta-feira, 24 de maio. Beleza! Ainda dá tempo de… Olho as capas para ver as manchetes, isso sempre me interessa. Ah, claro! Era aqui mesmo que eu queria estar. Pelo menos vou ver quem ganhou o jogo de ontem que eu não pude ver porque… por quê mesmo? Sei lá. Essa manchete aqui nem me interessou. Abro e vejo que na página 5 do Gazeta diz: Palmeiras vence de goleada, e coloca Atlético-PR na 3ª divisão. Ué! Que história é essa? Eu vi todos os jogos do Flamengo, foi bem esse ano. Ou não? Mas que droga! Pergunto pro S. Antônio: – O sr. viu o jogo do Flamengo ontem? Ele disse: – Meu  caro, que jogo do Flamengo? Nem se classificou. Oh, meu Deus! – eu disse alto, mas em que mundo será que eu vivo? Saí dali cabisbaixo… magoado comigo mesmo.

E pensei:

‘Como é possível sobreviver a essa traiçoeira que não me larga, a essa ausência de tudo que me deixava seguro, e a presença de um tempo que não volta mais? Para mim, parece que tudo é um recomeço. Bom, melhor esquecer. Nisso sou especialista. E acho que talvez teria sido melhor ver o jogo do Pelé’. 

4 pensamentos sobre “Teria sido melhor ver o jogo do Pelé

  1. texto muito bom! Humor sarcastico! O mais triste mesmo é esquecer a “cor da sombra”, de um olho para o outro!

    • Querido Cris, obrigada por prestigiar. Fico muito feliz que meu trabalho tem surtido algum efeito e que eu possa compartilhar um pouquinho das minhas vivências. Acompanhe os próximos textos. Abraços!

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