P. Sherman, 42 – Wallaby Way, Sydney

lovedoryQuem aqui lembra da Dory de “Procurando Nemo”, a peixinho divertida (e amnésica) que encantou nossos corações?

Não tem como esquecer do endereço que Dory encontrou no óculos de mergulho lá no fundo do mar. De tanto repetir a informação nunca mais esqueci. A repetição pode ajudar na aquisição de novas informações mesmo se a pessoa tiver problemas de memória como é o caso de Dory. Mas será que a repetição seria a única estratégia que auxiliaria pessoas com amnésia a evocar as informações aprendidas minutos atrás?

Bem, na verdade depende. Antes de responder a essa pergunta, queria apenas resgatar o conceito de amnésia (quem quiser saber um pouco mais, já falei deste tema aqui).

O tipo de dificuldade que Dory apresenta é para a aquisição de novas informações. A esse tipo de déficit chamamos de amnésia anterógrada porque a pessoa já não recupera informações com a qualidade de antes do evento que causou a amnésia. Neste texto falarei da amnésia permanente parcial levando em conta o caso da nossa personagem.

Vamos desmembrar cada conceito para entender a dificuldade específica de Dory que também observei com frequência em pacientes amnésicos.

Amnésia: uma dificuldade cognitiva relacionada à incapacidade de adquirir novas informações.

Permanente: não existe nada que possa ser feito para melhorar a memória. O tecido cerebral danificado não será restaurado e a região responsável pela memória não será regenerada (recuperada).

Parcial: está presente um senso de self, das pessoas e do mundo que a circunda. Embora a memória esteja mais frágil a pessoa é capaz de contornar sua dificuldade porque ainda possui recursos cognitivos, ou seja, não houve um prejuízo severo ao tecido cerebral e a lesão não afeitou todos os sistemas de memória, nem foi tão profunda.

Agora vamos relembrar algumas cenas do filme para que eu possa fazer uma comparação com o que tenho observado dos pacientes.

Cena 1: Quando Dory encontra Marlin pela primeira vez ela se apresenta e rapidamente esquece que já o viu alguns minutos atrás. Também esquece do que ele acabara de lhe contar sobre ter perdido Nemo.

Na prática não é exatamente assim que acontece. Quando os pacientes me veem eles não lembram o meu nome, mas lembram que já me viram e que estamos na sala de atendimento buscando formas de contornar suas dificuldades de memória. Se eu sair da sala para buscar algo, por exemplo, quando volto e pergunto o que estávamos fazendo eles são capazes de dizer, embora não se lembrem de detalhes que uma pessoa sem dificuldade de memória poderia lembrar.

Cena 2: Marlin lhe pergunta: – Você viu um barco? Ela responde: – Sim, acabou de passar. Em seguida se apresenta de novo. Marlin resmunga: – Onde ele foi? Dory diz: – ele foi pra lá! Vamos! Os dois seguem nadando e de repente Dory esquece de Marlin, olha pra trás e acredita estar sendo perseguida por alguém estranho.

Quando os pacientes deixam a clínica e ficamos um tempo sem nos ver (por exemplo, um mês) eles continuam lembrando que já me viram, reconhecem que já fizeram algumas tarefas cognitivas embora não lembrem muito bem quais, e algumas vezes conseguem lembrar o meu nome. Isso depende da quantidade de vezes que nos vimos e se ele anotou na agenda e conferiu minutos antes de me encontrar. Do mesmo modo como na vida real, Dory não esquece quem é Marlin, uma vez que já passaram algum tempo convivendo juntos.

Cena 3: Quando Dory encontra a máscara de mergulho com o endereço ela o repete inúmeras vezes porque sabe que a chance de esquecer é grande.

Alguns pacientes são capazes de aprender com a repetição, no entanto, a sobrecarga de informação pode impedi-los de lembrar da informação correta e/ou completa. Um endereço é uma informação curta assim como um número de telefone é, o número do RG ou a senha do cartão do banco. Portanto, com a repetição ou frente a exposição daquele estímulo por inúmeras vezes é possível conseguir lembrar de uma informação dada até mesmo há bastante tempo.

Agora vamos voltar à pergunta: “a repetição é a única estratégia que auxilia pessoas com amnésia a evocar as informações aprendidas minutos atrás?”

A resposta é não. Em reabilitação existem inúmeras técnicas e estratégias que podem ajudar essas pessoas com perda de memória permanente a conviver com a dificuldade e minimizar os efeitos que ela provoca no dia a dia. Vou citar algumas:

– O uso de uma agenda semanal.

– Quadros de anotações para informações gerais (lembretes para o dia).

– Despertadores, bipes ou timer para regular a passagem do tempo enquanto faz uma atividade, por exemplo, tomar banho.

– Associação de uma nova informação com algo que faça sentido. Por exemplo, lembrar o nome de alguém que conheceu e irá encontrar com certa frequência. Uma estratégia que funciona é associar com alguém que já conheça e tenha o mesmo nome, ou com alguma imagem. Se a pessoa se chamar Rosa, criar uma imagem mental de uma rosa ajudaria, ou para nomes não tão óbvios, atribuir algum significado para aquela pessoa.

– Ter uma rotina diária regular sem modificar o padrão das atividades.

– Para caminhos novos procurar saber se é perto de algum lugar que já foi antes, ou visualizar em um mapa e levá-lo consigo. Anotações de coordenadas também funcionam.

Essas são apenas algumas dicas. Na verdade cabe ao neuropsicólogo ser criativo e procurar entender a real dificuldade do paciente e que tipo de estratégia funciona para ele. Por exemplo, pacientes com dificuldades de memória e motoras podem se beneficiar de uma agenda, porém, se ele também tiver uma impossibilidade grafo-motora essa estratégia não é ideal. Algo que pode substituir a agenda é o uso do próprio celular que possui diversos recursos, inclusive alarmes para compromissos.

Como sempre, volto a dizer: o olhar e o raciocínio clínicos poderão dar a resposta mais adequada para como contornar um problema neurológico. Precisamos ser criativos, mas acima de tudo empáticos o bastante para entender como lidar com uma dificuldade permanente e qual o impacto na vida da pessoa assistida.

2 pensamentos sobre “P. Sherman, 42 – Wallaby Way, Sydney

  1. Olá Luciane,
    Adoro ler o que e como você escreve, faz a neuropsicologia ser menos complicada.
    Fiz neuropsicologia na FMUSP e gostaria muito de ter supervisão contigo. Acha isto possível?

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